
No ataque à Binance de 29 de outubro de 2026, quem congelou os valores desviados não foi a corretora, e sim os emissores dos tokens, com a Tether e a Circle à frente. Em cerca de quatro horas e meia, a Binance informava perto de US$ 3 bilhões travados. O bitcoin, que não tem emissor, ficou de fora. E a vítima comum não conta com a mesma rapidez.
A Binance estimou o impacto total em cerca de US$ 6,3 bilhões, em comunicado reproduzido pela cobertura ao vivo da Cointelegraph; o ataque começou por volta das 20h20 (UTC), segundo a TRM Labs. Os números de congelamento mudaram ao longo da noite. Às 23h35, a Binance falava em US$ 2,54 bilhões verificados e dizia que contas anteriores divergiam; às 0h30 de 30 de outubro, a TRM contava cerca de US$ 2,7 bilhões; às 0h52, a Binance chegava a cerca de US$ 3 bilhões. Por qualquer das contas, o total congelado ficava abaixo da metade do desvio. É notícia em desenvolvimento.
Quem congelou, e com base em quê
Pela composição publicada pela TRM, com os dados das 0h30, a Tether congelou cerca de 1,77 bilhão de USDT, e a Circle, cerca de 825 milhões de USDC. Somam-se a elas a Ripple (40,5 milhões de RLUSD), a World Liberty Financial (27,8 milhões de USD1) e o Conselho de Segurança da Arbitrum, instância de governança daquela rede (cerca de US$ 30 milhões em ETH e ARB).
O ponto comum é ter controle sobre o ativo ou sobre a rede. Os contratos do USDT e do USDC têm lista de bloqueio que trava um endereço inteiro, como explica o artigo sobre o freeze de USDT pela Tether. Não foi a Binance que congelou as stablecoins: ela informou o que travaram aqueles a quem chamou de parceiros. Se cada bloqueio partiu de pedido de autoridade ou de decisão do próprio emissor, não foi divulgado. Os termos do USDC admitem as duas hipóteses: bloqueio a critério exclusivo da Circle e congelamento por ordem de autoridade.
Uma corrida de horas
Mesmo assim, a velocidade não alcançou tudo. Segundo a TRM, antes dos bloqueios o atacante trocou cerca de 325 milhões de USDT por cerca de 122.300 ETH, por meio do UniswapX e de contratos semelhantes, com deságio superior a 10%. Tudo indica que o deságio foi o preço de sair a tempo de um ativo que tem quem o trave. O congelamento é uma disputa contra a conversão, e nela cada minuto conta.
O bitcoin não pode ser congelado na própria rede. Segundo a CoinDesk, 18.270 BTC, cerca de US$ 1,4 bilhão, saíram de uma carteira quente da Binance e foram repartidos em 19 carteiras; pela TRM, seguiam parados às 4h23 (UTC) de 30 de outubro. Sem emissor, só podem ser barrados quando chegarem a uma corretora, a uma mesa de balcão ou a um serviço de troca. No ataque à Bybit, em fevereiro de 2025, o FBI pediu a corretoras e operadores de nó que bloqueassem transações ligadas aos endereços usados para lavar os valores. Para a vítima comum, no Brasil, a via equivalente é a ordem judicial à corretora.
Por que a vítima comum não tem a mesma proteção
O poder técnico do emissor é o mesmo diante de US$ 3 bilhões ou de US$ 30 mil. Mudam três condições que o ataque reuniu e que a vítima de golpe, em regra, precisa construir.
O tempo
O ataque foi acompanhado em tempo real: às 21h15 (UTC), menos de uma hora após o início, a Arkham já somava valores em carteiras rotuladas como do atacante, segundo a Cointelegraph. Nos casos brasileiros noticiados, a escala é de meses. Segundo o Livecoins, com base no relato do advogado da vítima, uma câmara do Tribunal de Justiça de São Paulo mandou a Tether congelar USDT em maio de 2026, por um golpe de outubro e novembro de 2025. No caso de um investidor de Alagoas, as transferências foram de agosto a outubro de 2025, e o bloqueio preventivo veio em dezembro, como registra o artigo sobre a ordem de devolução dirigida à Tether. As reportagens não informam se os congelamentos foram cumpridos.
Quem pede
No ataque, os emissores agiram ao lado de uma das maiores corretoras do mundo, que os tratou como parceiros. Para a vítima individual, o caminho conhecido é outro: a Tether age diante de pedido de autoridade, ordem judicial ou sanção, e não da reclamação de quem perdeu o dinheiro. Nos casos brasileiros noticiados, a via foi a ordem judicial, e as reportagens não informam como ela chegou às empresas, sediadas no exterior.
De quem é o endereço
Os endereços congelados no ataque eram atribuídos ao atacante pelas empresas de análise, e travá-los por inteiro, em tese, não alcançava terceiros. Como os contratos bloqueiam por endereço, e não por valor, a conta muda quando o dinheiro da vítima chega a uma carteira que reúne recursos de muitas pessoas. Foi por isso que, segundo o Livecoins, uma juíza negou, no fim de setembro de 2026, o congelamento pedido contra a Tether e a Circle e mandou a filial brasileira da Kraken bloquear saldos ligados ao endereço, decisão analisada no artigo sobre o congelamento negado nas emissoras.
Congelar ainda não é devolver
Até a madrugada de 30 de outubro, nenhum emissor havia dito como o valor travado chegaria à Binance ou aos clientes, nem em que prazo. O que a Binance ofereceu aos clientes foi outra coisa: a promessa de cobrir as perdas com o fundo SAFU e recursos próprios. A vítima comum não tem quem lhe faça essa promessa e, mesmo quando obtém o bloqueio, depende de outra decisão, que mande restituir, e do seu cumprimento.
Considerações finais
O ataque à Binance mostrou o congelamento no cenário mais favorável: desvio visível em tempo real, endereços atribuídos ao atacante, emissores dispostos a agir e uma corretora em contato direto com eles. Ainda assim, menos da metade foi travada, e o bitcoin ficou de fora. Tudo indica que a pergunta decisiva não é se o emissor consegue congelar, e sim se o pedido chega a ele a tempo, dirigido ao endereço certo e na forma que ele reconhece. As duas primeiras respostas dependem de rastreamento feito antes de qualquer pedido.
Perguntas frequentes
Quem consegue congelar criptomoedas desviadas?
Quem controla o ativo. Stablecoins como USDT e USDC podem ser congeladas pelos emissores, Tether e Circle, que bloqueiam o endereço inteiro. O bitcoin não tem emissor e só pode ser barrado quando chega a uma corretora, a uma mesa de balcão ou a um serviço de troca.
Quanto tempo levou o congelamento no ataque à Binance?
Cerca de quatro horas e meia para chegar perto de US$ 3 bilhões, segundo a Binance: o ataque começou por volta das 20h20 (UTC) de 29 de outubro de 2026, e o número foi informado às 0h52 do dia seguinte. O total ficou abaixo da metade do desvio estimado.
Por que a vítima de golpe não consegue um congelamento tão rápido?
Porque, em regra, faltam as condições que o ataque reuniu: o desvio nem sempre é percebido na hora, a Tether age diante de autoridade ou ordem judicial, e não de pedido isolado da vítima, e o valor pode chegar a carteiras com recursos de terceiros. E congelar não equivale a devolver.
Referências
- TRM LABS. North Korea steals USD 6.36 billion from Binance in the largest hack in history. Acesso em: 30 out. 2026.
- MALWA, Shaurya. Binance hacker splits $1.4 billion of bitcoin into 19 wallets that no one can freeze. CoinDesk, 30 out. 2026.
- COINTELEGRAPH. Binance-linked wallet faces possible exploit, blockchain researcher warns. Cobertura ao vivo, 29 e 30 out. 2026.
- ESTADOS UNIDOS. Federal Bureau of Investigation. North Korea Responsible for $1.5 Billion Bybit Hack. Alerta de serviço público I-022625-PSA, 26 fev. 2025.
- CIRCLE. USDC Terms, seção 13. Atualização de 15 out. 2026.
- LIVECOINS (BERTOLUCCI, Gustavo). Tether é obrigada a congelar USDT de golpe de mineração no Brasil; precedente abre caminho para vítimas de fraudes cripto, 10 jun. 2026.
- LIVECOINS (BERTOLUCCI, Gustavo). Brasileiro pede que Tether trave valores em carteira de criptomoedas e Justiça aceita bloqueio de R$ 300 mil em USDT, 23 out. 2026.
- LIVECOINS (BERTOLUCCI, Gustavo). Após idoso cair em golpe de R$ 3 milhões, Justiça manda Kraken bloquear valores no Brasil e isenta Tether e Circle, 4 out. 2026.