
Os golpes de criptomoeda mais comuns no Brasil se dividem em poucas famílias: golpes de investimento (plataformas falsas, robôs de trading, pirâmides), golpes de relacionamento (pig butchering, golpe do amor, golpe da tarefa), golpes de impersonação (deepfakes, falso suporte, corretoras clonadas) e golpes técnicos (phishing, furto de celular, SIM swap). Este guia reúne todos — e o padrão que os une.
O prejuízo é grande e cresce. Segundo o FBI Internet Crime Complaint Center (IC3), as perdas com criptoativos nos Estados Unidos passaram de US$ 9,3 bilhões em 2024 para US$ 11,4 bilhões em 2025 — uma alta de 22% sobre o ano anterior, distribuída por 181.565 queixas, com prejuízo médio de US$ 62.604 por vítima [1]. É um retrato dos Estados Unidos, não do Brasil, mas o desenho dos golpes é o mesmo dos que chegam a nós. Vale notar o que esse número é: queixas efetivamente reportadas ao órgão no ano [1]. Em escala global, a Chainalysis estima US$ 17 bilhões desviados em golpes de cripto em 2025 [2]. Não existe um ranking oficial dos golpes "mais comuns" especificamente no Brasil, mas as famílias abaixo reúnem o que de fato chega às vítimas e às investigações.
Golpes de investimento: onde está o maior prejuízo
Se há um denominador comum ao dinheiro perdido em cripto, é a promessa de investimento. Segundo o FBI/IC3, os golpes de investimento formam a maior categoria de prejuízo com criptoativos — cerca de US$ 5,8 bilhões só em 2024 [1] —, e a Chainalysis aponta os programas de "alto rendimento" (o nome técnico do "retorno garantido") entre as modalidades que mais movimentam recursos por volume [2]. O mecanismo é sempre parecido: você acredita estar investindo, mas o dinheiro real deixa a sua carteira no instante do depósito. O saldo que cresce na tela é apenas um número que os operadores controlam.
- Plataforma de investimento falsa — exibe um saldo que só cresce, mas o saque trava e pedem uma "taxa" ou "imposto" para liberar. O saldo é fictício; o dinheiro saiu no depósito.
- Falso investimento com retorno garantido — promessa de lucro fixo (1% ao dia, 10% ao mês), quase sempre disfarçada de robô de trading ou arbitragem automática. Retorno certo em renda variável é uma contradição que denuncia a fraude.
- Rug pull e tokens fraudulentos — desenvolvedores criam um token com marketing agressivo, atraem compradores e removem toda a liquidez de uma vez, zerando o preço e deixando o investidor com moedas sem valor.
- Grupos de sinais e pump and dump — no pump and dump, você é a saída dos organizadores, que vendem no topo sobre a cabeça do grupo; no grupo "VIP", a taxa antecipada por "sinais garantidos" é o próprio golpe.
Pirâmides financeiras com cripto
As pirâmides — ou esquemas Ponzi — são talvez a fraude de cripto mais associada ao Brasil, e das mais custosas. Prometem retorno fixo e pagam os primeiros investidores com o dinheiro dos novos entrantes, até a captação não cobrir mais os saques e a estrutura ruir. Em 2023, a CPI das Pirâmides Financeiras da Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, um relatório que recomendou o indiciamento de 45 pessoas [5]. Os casos brasileiros — Unick Forex, Atlas Quantum, Trust Investing, Braiscompany, Rental Coins, InDeal e GenBit — mostram o desfecho real: apreensão de bitcoins, falências, condenações penais e multas milionárias da CVM.
Reunimos os sete casos e o que a Justiça decidiu em cada um no artigo sobre pirâmides de cripto no Brasil; a razão pela qual esses esquemas costumam ser de competência da Justiça Federal é tratada em por que pirâmides de criptoativos devem ser investigadas pela Polícia Federal.
Golpes de relacionamento: quando o vínculo é a arma
Aqui o criminoso não vende um investimento a um estranho — ele primeiro se torna alguém de confiança. É a engenharia social "quente", baseada em tempo e afeto. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) alerta que as perdas globais com o pig butchering superaram US$ 75 bilhões entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024, e descreve o Brasil como "terreno propício" para a fraude [3]. O padrão se repete: semanas ou meses de convivência antes de qualquer menção a dinheiro.
- Pig butchering (golpe do abate) — vínculo emocional cultivado por semanas ou meses, por app de namoro, rede social ou uma mensagem "enviada por engano", antes de induzir a vítima a um falso investimento.
- Golpe do amor (romance scam) — variação em que o vínculo é explicitamente romântico; o pedido pode ser para "investir juntos" ou para cobrir uma emergência inventada. O parceiro nunca aceita uma videochamada.
- Golpe da tarefa (falso emprego em USDT) — uma falsa vaga remota paga em USDT ou PIX por tarefas triviais; os primeiros pagamentos são reais, para gerar confiança, até pedirem depósitos para "liberar" comissões maiores. Um levantamento da Redbelt Security mapeou 128 grupos ativos no Brasil em 2025 [6].
Golpes de impersonação: fingir ser quem se confia
Nesta família, o golpista se passa por uma pessoa ou marca em que a vítima confia — um famoso, o "suporte" da corretora, um aplicativo oficial. A Chainalysis registrou que os golpes de impersonação cresceram 1.400% de um ano para o outro em 2025, com a severidade média por caso subindo cerca de 600% [2]. A inteligência artificial acelerou o fenômeno: segundo dados da Polícia Federal citados pela imprensa, o uso de deepfakes cresceu 830% entre 2024 e 2025 no país [7].
- Deepfake de famoso indicando investimento — vídeo com rosto e voz de uma celebridade fabricados por IA. O vídeo é a isca, não o golpe: ele leva à plataforma falsa. Verifique o registro na CVM, não o rosto no vídeo.
- Falso suporte de exchange — um "atendente" liga ou manda mensagem pedindo senha, código 2FA ou frase-semente. Nenhuma corretora de verdade faz isso: é engenharia social, não invasão.
- Exchange falsa ou corretora clonada — site que imita uma corretora real (com URL levemente diferente) ou uma corretora fictícia de aparência profissional; o depósito cai direto na carteira do golpista.
- Falso app de carteira ou exchange — aplicativo publicado em loja ou site que imita uma carteira ou exchange legítima e captura a frase-semente ou os valores depositados.
- WhatsApp clonado pedindo cripto — o criminoso assume a conta de um conhecido e, passando-se por ele, pede uma transferência urgente em cripto.
Golpes técnicos: furto direto de acesso ou de fundos
Por fim, há os golpes que dependem menos de convencer e mais de capturar — o acesso à sua conta, à sua carteira ou ao endereço de destino de uma transferência. São os mais "técnicos", mas quase todos ainda começam com um descuido humano: um clique, um código informado, um endereço copiado sem conferir.
- Phishing e drainers de carteira — um link malicioso leva a um site que pede para "conectar a carteira" e assinar uma transação; a assinatura, na verdade, autoriza esvaziá-la em segundos.
- SIM swap e furto de conta em exchange — o criminoso clona o seu chip para interceptar os códigos enviados por SMS, reseta as senhas e esvazia a sua conta na corretora.
- Furto de celular com cripto — o aparelho furtado, muitas vezes já desbloqueado, dá acesso aos aplicativos de carteira e exchange; a drenagem ocorre em minutos, o que torna as primeiras horas decisivas.
- Malware clipper — um programa instalado no aparelho troca, na hora de colar, o endereço de carteira que você copiou por outro, do criminoso; você envia achando que usou o endereço certo.
- Envenenamento de endereço (address poisoning) — o golpista faz você receber uma transação de valor irrisório vinda de um endereço parecidíssimo com um que você já usou, na aposta de que, na próxima vez, você copie o dele do histórico.
- Golpe do QR code — o código de pagamento exibido é substituído pelo do golpista, e o valor cai na carteira dele em vez de na do destinatário legítimo.
O golpe depois do golpe: o falso "recuperador"
Há ainda uma fraude que se alimenta de todas as anteriores. Depois de perder dinheiro, a vítima procura ajuda — e é abordada por alguém que se apresenta como "perito" ou "recuperador" e promete reaver tudo mediante uma taxa antecipada. É o recovery scam, o golpe depois do golpe, e vítimas recentes, em desespero, são o alvo preferencial. A regra é simples e não tem exceção: ninguém pode garantir a recuperação de cripto, porque a devolução depende de decisão judicial e de cooperação, muitas vezes internacional. Promessa de "recuperação garantida" mediante pagamento antecipado é, por si só, um sinal de fraude — como detalhamos no artigo sobre perícia legítima versus golpe de recuperação.
Dá para rastrear o dinheiro de um golpe?
Depende do tipo de golpe — e essa é a resposta honesta. Nos golpes de investimento e de relacionamento, em que a vítima envia os valores para um endereço controlado pelo golpista, o fluxo é concentrado e costuma terminar em uma exchange com cadastro de clientes (KYC), onde o cripto vira reais e ganha um nome. Aí a viabilidade de rastrear o bitcoin ou o USDT costuma ser alta. Já no pump and dump em corretoras descentralizadas (DEX), sem cadastro, ou quando o criminoso usa mixers, o rastro é mais difícil de seguir até um responsável — o que classifiquei, no livro Bitcoin e Lavagem de Dinheiro, como a diferença entre transações simples, rastreáveis de forma direta, e transações complexas, que exigem técnicas forenses mais sofisticadas [8].
Em todos os casos, vale a distinção que percorre este guia: rastrear não é o mesmo que recuperar. O rastreamento forense on-chain — trabalho que a Chainspect realiza — produz a prova técnica de para onde os valores foram; a identificação de quem os controla depende do cadastro KYC da exchange de destino e, em regra, de ordem judicial; o bloqueio e a eventual devolução dependem de decisão judicial e da cooperação das exchanges, como explicamos em a diferença entre rastrear, bloquear e recuperar. Por isso a velocidade importa: quem foi vítima encontra as primeiras medidas na página sobre fraudes com criptoativos e no passo a passo das primeiras 72 horas.
O padrão que une quase todos os golpes
Reunidos, os cerca de vinte formatos deste guia revelam menos variedade do que parece. Quase todos apoiam a fraude sobre a mesma promessa: a de um retorno certo, fixo ou "garantido" — algo que não existe em um mercado de renda variável. Como alerta a CVM, expressões como "renda certa", "rentabilidade garantida" ou percentuais fixos de ganho são sinais característicos de fraude [4]. O segundo padrão mais universal é o pedido de pagamento antecipado: uma "taxa" para liberar um saque, uma quantia para "desbloquear" uma vaga ou uma comissão para "recuperar" o que se perdeu. Nenhum saque, emprego ou processo legítimo começa exigindo que você pague para receber.
A defesa mais barata, portanto, não é técnica. É deslocar o olhar: em vez de julgar a aparência do site, o profissionalismo do aplicativo ou o rosto no vídeo, verificar o registro da empresa na CVM e desconfiar de qualquer promessa de lucro certo. O valor médio pago por vítima em golpes de cripto subiu 253% em um único ano — de US$ 782 em 2024 para US$ 2.764 em 2025, segundo a Chainalysis [2] —, sinal de que os esquemas estão pedindo cada vez mais de cada pessoa. Reconhecer o padrão é o que interrompe a fraude antes do depósito.
Considerações finais
Não existe um catálogo fechado de golpes de cripto — os formatos se recombinam, e a tecnologia, sobretudo a inteligência artificial, cria novas iscas a cada ano. Mas a engenharia por trás deles é notavelmente estável: capturar a confiança (por um investimento, um relacionamento, um rosto conhecido ou um "suporte") e, então, direcionar o dinheiro para um endereço que o próprio criminoso controla. Entender as famílias reunidas aqui é entender que, de um golpe para o outro, muda quase sempre apenas a embalagem.
Quando a fraude já ocorreu, duas coisas preservam a chance de resposta: agir rápido — as primeiras horas são as mais valiosas — e preservar tudo, dos prints aos identificadores de transação. O rastro on-chain quase sempre existe, e é a base técnica sobre a qual se constroem o boletim de ocorrência, o pedido de bloqueio e a ação judicial. Ele não devolve o dinheiro sozinho; mas, sem ele, não há a quem responsabilizar. Vítimas encontram orientação na página sobre fraudes com criptoativos.
Perguntas frequentes
Quais são os golpes de criptomoeda mais comuns no Brasil?
Eles se concentram em quatro famílias: golpes de investimento (plataformas de investimento falsas, robôs de trading com retorno garantido, pirâmides e rug pulls); golpes de relacionamento (pig butchering, golpe do amor e golpe da tarefa); golpes de impersonação (deepfakes de famosos, falso suporte de exchange e corretoras clonadas); e golpes técnicos (phishing, SIM swap, furto de celular e desvio de endereço). Não há ranking oficial no Brasil. Nos Estados Unidos, segundo o FBI/IC3, os golpes de investimento concentram o maior prejuízo.
Qual é o sinal comum à maioria dos golpes de criptomoeda?
A promessa de retorno certo ou fixo. Criptoativos são renda variável, e nenhum investimento legítimo garante lucro — por isso a própria CVM trata "renda certa" ou "rentabilidade garantida" como sinal de fraude. O segundo sinal mais universal é o pedido para pagar uma taxa antecipada a fim de "liberar" um saque, uma vaga ou uma recuperação. Onde há qualquer um dos dois, trate como golpe.
Todo golpe de criptomoeda pode ser rastreado?
Não. A viabilidade varia com o tipo. Nos golpes de investimento e de relacionamento, em que a vítima envia os valores para um endereço do golpista, o fluxo é concentrado e costuma terminar numa exchange com cadastro (KYC) — a rastreabilidade é alta. Já no pump and dump em corretoras descentralizadas (DEX) ou quando há uso de mixers, o rastro é mais difícil. Em todos os casos, rastrear não é o mesmo que recuperar.
O que fazer se caí em um golpe de criptomoeda?
Preserve todas as provas — prints das conversas, comprovantes de PIX ou transferência, endereços e identificadores de transação (TXID) —, registre boletim de ocorrência e busque orientação técnica e jurídica. As primeiras 72 horas são as mais importantes, porque é quando ainda há chance de bloquear os valores antes que se dispersem. O rastreamento on-chain produz a prova que instrui o boletim, o inquérito e as medidas judiciais.
Como não cair em um golpe de criptomoeda?
Verifique o registro da empresa na CVM antes de depositar — a aparência do site e o rosto no vídeo não provam nada. Desconfie de retorno garantido, de qualquer pedido de taxa para liberar saque e de contatos não solicitados por WhatsApp ou Telegram. Nunca informe senha, código 2FA ou frase-semente, e jamais deposite para "liberar" ganhos, uma vaga ou uma recuperação. Nenhuma empresa séria promete devolver o que você perdeu.
Referências
- FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION. Internet Crime Complaint Center (IC3) — 2024 e 2025 Internet Crime Reports. Washington, D.C., 2025-2026. Perdas com criptoativos reportadas nos Estados Unidos; a categoria de golpes de investimento é a maior fatia de prejuízo.
- CHAINALYSIS. 2026 Crypto Crime Report: Scams. 2026. Estimativa global de golpes de cripto em 2025; crescimento de golpes de impersonação e do valor médio pago por vítima.
- BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários. Você conhece o pig butchering scam? Portal do Investidor. Brasília, 6 out. 2025. Texto de Ronaldo Souza e Maria Adriana Campêlo.
- BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários. Alertas — ofertas e atuações irregulares e Robôs de investimentos (robôs advisors). Portal do Investidor, 2025.
- BRASIL. Câmara dos Deputados. CPI das Pirâmides Financeiras — Relatório Final. Brasília, 9 out. 2023 (aprovado por unanimidade; recomendação de 45 indiciamentos).
- REDBELT SECURITY (levantamento citado pela CNN Brasil). Boom do "golpe da tarefa" no Brasil: 128 grupos ativos. 2025.
- POLÍCIA FEDERAL. Dados sobre o crescimento de deepfakes e do uso de inteligência artificial em fraudes financeiras no Brasil (2024-2025), citados por EXAME e INVESTNEWS, 2025.
- MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.