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Pig butchering (golpe do abate) no Brasil

Pig butchering (golpe do abate) no Brasil

O pig butchering — traduzido como "golpe do abate" — é uma fraude em que o criminoso cultiva um vínculo emocional com a vítima durante semanas ou meses, por aplicativo de relacionamento, rede social ou até uma mensagem "enviada por engano" no WhatsApp, para só então induzi-la a aplicar dinheiro em uma falsa plataforma de criptomoedas. O nome vem da prática de engordar o porco antes do abate.

Não se trata de um golpe marginal. Segundo o Portal do Investidor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), as perdas globais com pig butchering superaram US$ 75 bilhões entre 2020 e 2024, e o Brasil é descrito como "um terreno propício" para a fraude, pela expansão do ambiente digital e pela popularidade das criptomoedas [1]. A empresa de análise on-chain Chainalysis, por sua vez, aponta o pig butchering como uma das modalidades que mais movimentam recursos por volume no mundo [2].

De onde vem o nome "golpe do abate"

A expressão nasce do mandarim Sha Zhu Pan (杀猪盘), que significa literalmente "abate do porco". A metáfora é fria e descreve com precisão o método: o golpista "engorda" a vítima com afeto e com lucros falsos antes de "abatê-la" — ou seja, antes de levar todo o dinheiro de uma vez.

Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o golpe se estruturou no Sudeste Asiático e é frequentemente operado a partir de complexos onde há pessoas submetidas a trabalho forçado, obrigadas a aplicar o roteiro em escala industrial [3]. Isso muda a forma de encarar o problema: do outro lado da tela nem sempre há um único indivíduo, e sim uma operação organizada, com scripts, turnos e metas. O afeto que a vítima recebe é, na prática, um produto fabricado.

Como o golpe funciona: o vínculo é a arma

O que distingue o pig butchering de outros golpes de investimento não é a tecnologia, e sim a paciência. Enquanto uma fraude comum tenta convencer a vítima em uma única abordagem, aqui o criminoso investe semanas ou meses construindo uma relação — romântica ou de amizade — antes de mencionar dinheiro. O roteiro costuma seguir quatro fases:

  • Aproximação — o contato surge por aplicativo de relacionamento, rede social, grupo de mensagens ou uma mensagem "errada" no WhatsApp ("Oi, Dr. Paulo?"). A conversa é amistosa e sem qualquer menção a investimento.
  • Cultivo do vínculo — durante semanas, o golpista demonstra interesse genuíno, compartilha rotina, fotos e planos. A vítima passa a confiar em alguém que acredita conhecer bem.
  • A oportunidade — só então surge o investimento. O golpista conta que "ganha dinheiro" com cripto e se oferece para ensinar. Mostra os próprios "lucros" e convida a vítima a testar com pouco.
  • O abate — a vítima vê o saldo crescer numa plataforma que parece profissional e deposita cada vez mais. Quando tenta sacar, surgem "taxas" e "impostos" para liberar. No fim, como resume a CVM, o site é bloqueado para saques e os contatos são bloqueados [1].

A plataforma que exibe lucros crescentes é, ela própria, uma engrenagem central da fraude — um mecanismo que detalhamos no artigo sobre a plataforma de investimento falsa. Aqui, porém, o ponto decisivo é anterior a ela: a vítima não deposita porque acreditou em um anúncio, e sim porque confiou em uma pessoa.

Por que o vínculo emocional torna o golpe tão eficaz

Como descrevem Ronaldo Souza e Maria Adriana Campêlo, autores do material do Portal do Investidor da CVM, o pig butchering é um golpe "sofisticado" justamente porque explora a confiança construída ao longo do tempo [1]. Esse é o elemento que o torna mais perverso do que uma abordagem fria: a vítima não avalia uma proposta financeira com distanciamento — ela avalia o conselho de alguém por quem, muitas vezes, desenvolveu afeto.

Duas consequências decorrem daí. A primeira é o aumento progressivo dos valores: a Chainalysis registra que o valor médio pago por vítima em golpes com criptoativos em geral — não apenas no pig butchering — saltou 253% em um ano — de US$ 782 em 2024 para US$ 2.764 em 2025 —, movimento coerente com a lógica de "engorda" [2]. A segunda, e mais grave para a investigação, é a demora em denunciar. Envergonhada ou ainda esperançosa de que o "parceiro" seja real, a vítima costuma levar semanas para admitir o golpe — e cada dia perdido reduz a chance de bloquear os valores.

O golpe do abate deixa rastro?

Sim. Diferentemente do que muitas vítimas imaginam, o pig butchering tende a ter rastreabilidade alta. A vítima transfere os criptoativos para um endereço controlado pelo golpista, e esse fluxo costuma terminar em uma exchange com cadastro de clientes (KYC) — frequentemente na Ásia —, o que cria um ponto de identificação rastreável. No Brasil, o caminho mais comum começa com um PIX convertido em USDT na rede TRON, a stablecoin preferida nesse tipo de operação.

Em geral, o fluxo do pig butchering é o que classifiquei, no livro Bitcoin e Lavagem de Dinheiro, como uma transação "simples" — rastreável de forma direta —, em oposição às que passam por mixers ou bridges e exigem técnicas forenses mais sofisticadas [4]. Mas é importante separar rastrear de recuperar. O rastreamento on-chain — que a Chainspect realiza — produz uma prova técnica que identifica o destino dos valores — tipicamente a conta de exchange que os recebeu, cuja titularidade se revela pelo cadastro KYC, em regra mediante ordem judicial; a devolução, quando ocorre, depende de decisão judicial, de cooperação internacional e da velocidade da reação. Por isso a demora em denunciar é tão custosa. Quem foi vítima encontra as medidas cabíveis na página sobre fraudes com criptoativos.

Um último alerta: vítimas de pig butchering estão entre os alvos preferenciais do chamado recovery scam — o "golpe depois do golpe", em que falsos recuperadores cobram taxas antecipadas prometendo devolver o que se perdeu. Nenhuma empresa séria promete recuperação garantida.

Considerações finais

O "golpe do abate" é, antes de tudo, um golpe de confiança. Sua eficácia não está numa plataforma sofisticada — que existe, mas é secundária —, e sim na disposição do criminoso de investir tempo para transformar um estranho em alguém de confiança. Entende-se que reconhecer o padrão é a melhor defesa: quando uma relação iniciada online migra, com naturalidade, para conselhos de investimento em cripto, é hora de desconfiar.

O pig butchering é uma das modalidades reunidas no guia dos principais golpes com criptomoedas no Brasil. Verificar o registro da plataforma na CVM, jamais depositar por indicação de alguém que se conheceu online e agir com rapidez ao primeiro sinal de bloqueio de saque são as três atitudes que mais protegem. E, quando o golpe já ocorreu, o que preserva a chance de resposta é a velocidade em documentar tudo e buscar o rastreamento.

Perguntas frequentes

O que é o golpe pig butchering (golpe do abate)?

O pig butchering, ou golpe do abate, é uma fraude em que o criminoso cultiva um vínculo emocional com a vítima por semanas ou meses e depois a induz a investir em uma falsa plataforma de criptomoedas. O nome vem da prática de engordar o porco — a vítima — antes do abate, quando o golpista leva todo o dinheiro.

Como o golpe do abate começa?

Quase sempre por um contato aparentemente casual: um match em aplicativo de namoro, uma abordagem em rede social ou uma mensagem enviada por engano no WhatsApp. Nas primeiras semanas não há qualquer menção a dinheiro — o objetivo do golpista é apenas construir confiança antes de apresentar a suposta oportunidade de investimento.

Quanto tempo dura um golpe de pig butchering?

Não há prazo fixo, mas o cultivo do vínculo costuma durar de algumas semanas a vários meses. Essa paciência é a característica que distingue o golpe do abate de fraudes de investimento comuns e é justamente o que faz a vítima baixar a guarda e depositar valores cada vez maiores.

É possível rastrear o dinheiro perdido em um pig butchering?

Em geral, sim. A rastreabilidade costuma ser alta, porque a vítima envia os valores para um endereço do golpista e o fluxo tende a terminar em uma exchange com cadastro (KYC). O rastreamento on-chain produz prova técnica sobre o destino dos valores — mas rastrear não é o mesmo que recuperar: a devolução depende de decisão judicial e de cooperação, muitas vezes internacional.

Por que a vítima demora a perceber o golpe do abate?

Porque o golpe explora um vínculo afetivo real, construído ao longo do tempo. A vítima confia na pessoa, vê lucros crescerem numa tela e, mesmo diante de dificuldades para sacar, tende a acreditar que se trata de um problema temporário. A vergonha e a esperança de que o relacionamento seja verdadeiro fazem a denúncia demorar — o que reduz a chance de bloquear os valores.

Referências

  1. BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários. Você conhece o pig butchering scam? Portal do Investidor. Brasília, 6 out. 2025. Texto de Ronaldo Souza e Maria Adriana Campêlo.
  2. CHAINALYSIS. 2026 Crypto Crime Report: Scams. 2026.
  3. UNODC — ESCRITÓRIO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE DROGAS E CRIME. Casinos, Cyber Fraud, and Trafficking in Persons for Forced Criminality in Southeast Asia — Policy Report. Bangkok, 2023.
  4. MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.