
Sim — se as cerca de 200 vítimas caíram no mesmo esquema, um rastreamento coletivo único costuma fazer sentido. Golpes estruturados afunilam os depósitos de muitas vítimas para um conjunto comum de carteiras, de modo que o esquema deixa um só rastro on-chain. Esse rastro é mapeado uma vez, e o parecer resultante serve ao grupo inteiro — em vez de centenas de análises isoladas do mesmo caminho.
A base técnica dessa resposta ficou visível num caso documentado pela Chainalysis em agosto de 2025. Ao analisar um golpe de pig butchering (a "engorda do porco", em que a vítima é seduzida aos poucos a "investir") na Ásia-Pacífico, a empresa de análise on-chain mostrou que os valores desviados de muitas vítimas foram enviados a uma "carteira de consolidação" única, que repassou US$ 46,9 milhões em USDT a poucos endereços intermediários [1]. Segundo a Chainalysis, "é provável que centenas de carteiras tenham enviado fundos a esse golpe" — e a Tether acabou congelando quase US$ 50 milhões em USDT em cooperação com as autoridades da região. O tipo de golpe ali é outro, mas o padrão é o que interessa: esquemas em massa concentram o dinheiro de muita gente em poucas carteiras.
No Brasil, esses esquemas alcançam escalas que tornam o rastreamento individualizado pouco prático. A Atlas Quantum, por exemplo, foi multada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em cerca de R$ 55,8 milhões em 2024, por operação fraudulenta e embaraço à fiscalização [2]. O número de vítimas é controverso: o próprio processo da CVM estima prejuízo de aproximadamente R$ 1,1 bilhão a cerca de 39,9 mil investidores, enquanto reportagens da época chegaram a falar em torno de 200 mil vítimas e R$ 7 bilhões — cifras que excedem o escopo apurado pela autarquia. Seja qual for o recorte, trata-se de milhares de pessoas lesadas pelo mesmo esquema, muitas vezes uma pirâmide financeira — exatamente o cenário em que um rastreamento único, e não milhares de análises separadas, é o que faz sentido.
Um esquema, um só rastro: por que o trabalho não se multiplica por vítima
Quem monta um esquema que recebe dinheiro de centenas de pessoas não guarda cada depósito numa carteira diferente: junta tudo em poucos endereços para movimentar e sacar. É esse afunilamento que torna o rastreamento coletivo tecnicamente possível. A análise forense parte dos endereços do esquema e os agrupa por heurística — em especial a heurística de inputs comuns, que presume que endereços usados juntos numa mesma transação pertencem ao mesmo dono [3]. O produto é um mapa único do fluxo: para onde o dinheiro do esquema foi e em que corretora ele reaparece, ponto em que a investigação se aproxima de uma pessoa real. É a mesma análise on-chain que descrevo ao tratar do rastreamento de um golpe, só que aplicada a um esquema com muitas entradas em vez de uma. Como esse mapa cobre o esquema inteiro, o trabalho pericial é feito uma vez — não se refaz vítima por vítima. São técnicas que as próprias autoridades empregam no rastreamento patrimonial — campo do guia GRINPA.
Um trabalho, dividido pelo grupo: a lógica do custo rateado
Daí decorre o rateio. Se o trabalho técnico sobre o esquema — as mesmas carteiras, os mesmos fluxos — é feito uma única vez, faz pouco sentido que cada uma das 200 vítimas pague por um rastreamento separado do mesmo rastro. Um parecer forense compartilhado divide um trabalho único entre o grupo, em vez de multiplicá-lo por cabeça. É economia de escala pericial: o custo por vítima de um parecer coletivo tende a ser menor do que o de 200 pareceres individuais, simplesmente porque a análise não se repete. Isso é aritmética, não tabela de preço — a viabilidade e o formato de cada caso se avaliam individualmente. O ponto conceitual é simples: o mesmo esquema tem um só rastro, e um só rastro pede um só rastreamento.
O que um parecer coletivo não resolve
Um parecer para o grupo tem limites honestos, e o primeiro é este: ele não dispensa a prova individual de cada vítima. A análise mapeia o rio — o caminho do dinheiro do esquema —, mas cada vítima ainda precisa mostrar onde entrou nele. Na prática, cada pessoa deve reunir o seu próprio material: o identificador da transação (o TXID) ou o comprovante do PIX, o valor, a data e o endereço para onde enviou. O rastreamento coletivo liga esses depósitos individuais ao fluxo comum; sem o dado de cada um, o parecer descreve o esquema, mas não comprova a perda de cada vítima em particular.
O segundo limite é o requisito de origem. O rastreamento coletivo só funciona se for, de fato, o mesmo esquema. Vítimas de golpes distintos, ou de carteiras sem ligação entre si, não compartilham um rastro — e, portanto, não compartilham um parecer. Antes de organizar qualquer coisa em conjunto, o grupo precisa confirmar que caiu no mesmo golpe: a mesma plataforma, os mesmos endereços de destino, o mesmo período. Essa "origem comum" é o que reúne as 200 pessoas num único caso técnico — e é também o que, no campo jurídico, fundamenta a ação coletiva das vítimas contra a mesma pirâmide. Sem ela, o que há são 200 casos diferentes que apenas se parecem.
O terceiro limite é o mais importante, e vale igual para um ou para duzentos: rastrear não é recuperar. Um parecer coletivo, por mais robusto, é prova — não é dinheiro de volta. Ele documenta o caminho dos valores; a identificação de quem os controla depende do cadastro KYC da exchange de destino e, em regra, de ordem judicial, e é isso que instrui os pedidos de bloqueio e as medidas judiciais cabíveis. A devolução, porém, depende do processo: decisão da Justiça, cooperação de corretoras e, com frequência, cooperação internacional — fatores que nenhum rastreamento controla. A Chainspect produz o parecer de rastreamento coletivo; não promete a recuperação, porque ela não depende do rastreamento. Esse teto vale no atacado: nenhum profissional sério promete devolver o dinheiro de um grupo, assim como não promete a uma única vítima.
Considerações finais
Para um grupo de cerca de 200 vítimas do mesmo esquema, a resposta à pergunta inicial é, na maioria dos casos, sim: um rastreamento coletivo único é mais racional — técnica e economicamente — do que 200 análises isoladas do mesmo rastro. O esquema tem um só caminho on-chain; mapeá-lo uma vez serve a todos, e o custo do trabalho pericial se divide pelo grupo em vez de se multiplicar. O que o parecer coletivo não faz é substituir a prova individual de cada vítima nem garantir a devolução — ele entrega a evidência que sustenta os pedidos de bloqueio e as ações.
Vale separar os papéis com clareza. A organização jurídica do grupo — reunir as vítimas, escolher a via processual e ajuizar a demanda — é um passo à parte, conduzido pelo advogado que representa o grupo. A Chainspect atua na etapa técnica, produzindo o parecer que documenta o rastro comum. Quem quiser avaliar se o caso reúne condições para a análise pode começar pelo diagnóstico preliminar, e as vítimas encontram os primeiros passos na página sobre o que fazer diante de um golpe com criptoativos.
Perguntas frequentes
Somos cerca de 200 vítimas do mesmo golpe. Vale um rastreamento coletivo único?
Na maioria dos casos, sim. Quando as vítimas caíram no mesmo esquema, os depósitos convergem para um conjunto comum de carteiras, e o esquema deixa um só rastro na blockchain. Esse rastro é mapeado uma vez, num único parecer que serve ao grupo inteiro — mais racional, técnica e economicamente, do que centenas de análises isoladas do mesmo caminho.
Como o custo do rastreamento coletivo é dividido entre as vítimas?
Pela lógica do rateio: o trabalho técnico sobre o esquema é feito uma única vez, sobre as mesmas carteiras e os mesmos fluxos. Um parecer compartilhado divide esse trabalho único entre o grupo, em vez de multiplicá-lo por pessoa, então o custo por vítima tende a ser menor do que o de pareceres individuais. É economia de escala pericial; a viabilidade e o formato se avaliam caso a caso.
Um parecer coletivo dispensa a prova de cada vítima?
Não. A análise mapeia o caminho do dinheiro do esquema, mas cada vítima ainda precisa mostrar onde entrou nele: o identificador da transação (TXID) ou o comprovante do PIX, o valor, a data e o endereço para onde enviou. O rastreamento coletivo liga esses depósitos individuais ao fluxo comum, mas não substitui o material de cada pessoa.
O rastreamento coletivo recupera o dinheiro do grupo?
Não. Rastrear não é recuperar, nem para um nem para duzentos. O parecer coletivo é prova — documenta o caminho dos valores; a identificação de quem os controla depende do cadastro KYC da exchange de destino e, em regra, de ordem judicial, o que instrui pedidos de bloqueio e ações judiciais. A devolução depende do processo, da cooperação de corretoras e, muitas vezes, de cooperação internacional. Nenhum profissional sério promete reaver o dinheiro de um grupo.
Referências
- CHAINALYSIS. APAC-based Law Enforcement Freezes $47 Million in Pig Butchering Funds. 2025.
- BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários. Processo Administrativo Sancionador CVM nº 19957.011029/2019-64 (Atlas Quantum). Rel. Dir. Daniel Maeda, j. 21 maio 2024.
- MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.