
Não existe um único perfil de vítima de golpe de cripto — mas o retrato oficial brasileiro quebra o estereótipo do "leigo ingênuo". Segundo a pesquisa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) com vítimas de fraude financeira (2021), a maioria é de homens (91%), na faixa dos 30 aos 39 anos e — o dado mais surpreendente — com pós-graduação. Escolaridade alta não protege.
É preciso, porém, ler esse retrato com cuidado. A pesquisa da CVM, divulgada em 2021, trata de fraude de investimento em geral — ainda que a criptomoeda seja o produto mais citado pelas vítimas (43,3%) — e se baseia numa amostra pequena, de 178 vítimas. Serve como fotografia qualitativa, não como estatística definitiva. E há uma segunda camada que muda tudo: quem mais cai por frequência não é quem mais perde em dinheiro. Este artigo separa os dois eixos.
O retrato oficial da vítima no Brasil
O levantamento mais próximo de um perfil oficial da vítima brasileira é a Pesquisa com Vítimas de Fraudes Financeiras, conduzida pelo Centro de Estudos Comportamentais e Pesquisas (CECOP) da CVM [1]. Os traços que ela desenha são consistentes e, em parte, contraintuitivos:
- Sexo: 91% das vítimas eram homens.
- Idade: a faixa mais atingida foi a dos 30 aos 39 anos (36,5%) — não a dos idosos.
- Escolaridade: 38% tinham pós-graduação — o dado que mais contraria o senso comum.
- Renda familiar: a mais comum foi de 2 a 5 salários mínimos (23%).
- Produto: a criptomoeda foi o investimento mais citado (43,3%), à frente de Forex, opções binárias e ações.
- Canal de abordagem: o WhatsApp liderou (27,5%), seguido da indicação boca a boca, pessoalmente (19,7%).
- Perda mais comum: entre R$ 10 mil e R$ 50 mil (22,5%).
Duas ressalvas honestas antes de tratar esse retrato como definitivo. A primeira é a data: os números são de 2021 e servem para indicar ordem de grandeza e hierarquia, não como fotografia do ano corrente. A segunda é o escopo: a pesquisa mede fraude de investimento em geral — a criptomoeda é apenas o produto mais frequente nos relatos —, e a amostra de vítimas é pequena. Não existe, no Brasil, um levantamento oficial, recente e específico de cripto sobre quem é a vítima. Este é o melhor retrato disponível, e ele já é suficiente para derrubar um mito.
Escolaridade não protege — por que gente instruída cai
O dado que mais desafia o senso comum é a escolaridade: 38% das vítimas tinham pós-graduação. Isso contraria a ideia difundida de que golpe de investimento é coisa de quem "não entende nada". Não é. Cair em um golpe de cripto não é sintoma de falta de inteligência — é o resultado de uma engenharia de confiança cuidadosamente construída para contornar exatamente o raciocínio crítico de quem se considera precavido.
Os gatilhos que mais pesam confirmam a lógica. Segundo o comunicado da CVM sobre a pesquisa, entre os fatores que levaram a vítima a confiar destacaram-se a aparência do site, que transmitia credibilidade (39,9%), e o fato de familiares ou amigos já terem feito o mesmo investimento — a chamada prova social (38,8%). Somam-se a eles o bom atendimento dos supostos operadores, um valor de entrada baixo, que reduz a percepção de risco, e o simples desconhecimento daquela modalidade de golpe. Nenhum desses elementos tem qualquer relação com o nível de instrução da vítima.
A própria CVM associa a vitimização a um perfil mais aberto ao risco e a produtos financeiros inovadores — justamente o público que se sente confortável para experimentar criptoativos. Ou seja: o que expõe a pessoa não é ignorância, e sim uma combinação de apetite por retorno, familiaridade com tecnologia e a confiança de que "comigo não acontece". Culpar a vítima, além de injusto, é tecnicamente impreciso: o golpe é desenhado para vencer o discernimento, não para se aproveitar da falta dele.
Jovem ou idoso? Depende do que se mede
Aqui está a nuance que a maioria das reportagens ignora: o "perfil" tem dois eixos que não coincidem. Um é a frequência — quem cai mais vezes. O outro é o prejuízo — quem perde mais dinheiro por vez. Confundir os dois produz manchetes erradas, do tipo "só o jovem cai" ou "só o idoso cai". Nenhuma das duas é verdadeira.
Por frequência, os adultos jovens lideram. No Brasil, a CVM aponta a faixa dos 30 aos 39 anos como a mais atingida. Nos Estados Unidos, a Comissão Federal de Comércio (FTC) chegou a uma conclusão convergente: adultos de 20 a 49 anos têm mais de três vezes mais probabilidade de relatar perdas com cripto para golpistas do que pessoas mais velhas — e mais de cinco vezes mais quando se trata especificamente de golpe de investimento em criptomoedas [2]. É o público mais exposto a plataformas digitais, mais confiante com tecnologia e mais suscetível à promessa de multiplicar o dinheiro rápido.
Por valor perdido, os idosos lideram. Quando uma pessoa mais velha cai, ela tende a perder muito mais. No relatório do IC3 de 2025, o FBI registrou que vítimas com 60 anos ou mais responderam por cerca de US$ 4,43 bilhões em perdas com criptoativos nos Estados Unidos — aproximadamente 39% de todo o prejuízo com cripto no país naquele ano [3]. O idoso é o alvo preferencial dos golpes de maior ticket, como o de relacionamento e o pig butchering, que estão entre os golpes de cripto mais comuns no Brasil — fraudes construídas com meses de vínculo emocional antes do abate financeiro.
Vale reforçar o escopo geográfico, para não misturar o que não se mistura: o retrato demográfico do Brasil vem da CVM; os dados de idade por frequência (FTC) e por valor (FBI) são dos Estados Unidos. Não há, para o Brasil, uma cifra oficial que separe o prejuízo de vítimas de cripto por faixa etária. O que os três levantamentos têm em comum é o padrão — e o padrão é claro: idade não define quem é imune, define apenas de que forma o golpe atinge cada grupo.
Considerações finais
A resposta honesta para "que perfil de pessoa mais cai em golpe de cripto" é que não existe um perfil único, e sim eixos. Por frequência, o retrato brasileiro é de um homem adulto, na casa dos 30 aos 40 anos, escolarizado e com apetite por investimentos inovadores. Por prejuízo, os idosos são os que mais perdem quando são atingidos. E, acima de tudo, escolaridade não protege: o golpe explora a confiança, não a falta de conhecimento.
Reconhecer isso muda a forma de se prevenir. Se o gatilho é a confiança — a aparência profissional, a indicação de um conhecido, o retorno garantido —, a defesa não é "ser mais inteligente", e sim desconfiar justamente dos sinais que parecem tranquilizadores. Quem quiser dimensionar o problema encontra os números no texto sobre estatísticas de golpes com cripto no Brasil. E, para quem já foi vítima, o que muda o desfecho é a rapidez: as primeiras 72 horas após o golpe são as mais valiosas, e há orientações específicas na página dedicada a fraudes com criptoativos. A blockchain registra o caminho do dinheiro — e esse rastro independe de quem foi a vítima.
Perguntas frequentes
Que perfil de pessoa mais cai em golpe de cripto?
Não há um único perfil, mas o retrato oficial brasileiro (pesquisa da CVM, 2021) aponta predominância de homens (91%), na faixa dos 30 aos 39 anos e com escolaridade alta — 38% tinham pós-graduação. A criptomoeda foi o produto de investimento mais citado pelas vítimas (43,3%). É um retrato de fraude de investimento em geral, com amostra pequena, mas indica que o estereótipo do "leigo ingênuo" não se sustenta.
Pessoas com mais estudo estão protegidas de golpes de cripto?
Não. Segundo a pesquisa da CVM, 38% das vítimas de fraude de investimento tinham pós-graduação. Golpe de cripto não é falta de inteligência: é engenharia de confiança, que explora prova social, aparência de credibilidade e a promessa de retorno fácil. Pessoas instruídas caem — às vezes com aportes maiores.
Jovens ou idosos caem mais em golpes de cripto?
Depende do que se mede. Por frequência, caem mais os adultos jovens: a CVM aponta a faixa de 30 a 39 anos como a mais atingida no Brasil, e a FTC, nos EUA, mostra que pessoas de 20 a 49 anos têm mais probabilidade de perder cripto para golpistas. Por valor perdido, porém, os idosos lideram: o FBI registrou que vítimas com 60 anos ou mais responderam por cerca de 39% das perdas com cripto nos EUA em 2025.
Existe uma pesquisa oficial sobre o perfil das vítimas de golpe de cripto no Brasil?
Não existe uma pesquisa oficial, recente e específica de cripto sobre o perfil da vítima no Brasil. A referência mais próxima é a Pesquisa com Vítimas de Fraudes Financeiras da CVM, de 2021, que trata de fraude de investimento em geral (com cripto como produto mais citado) e tem amostra pequena, de 178 vítimas. Os demais dados vêm de reguladores dos Estados Unidos (FTC e FBI).
Por que pessoas inteligentes caem em golpes de criptomoeda?
Porque o golpe não ataca a inteligência, e sim a confiança. Os gatilhos que mais pesam são a prova social (familiares ou amigos que já investiram), a aparência profissional da plataforma, o bom atendimento e um valor de entrada baixo. Nenhum desses fatores tem relação com escolaridade — por isso pessoas instruídas, inclusive com pós-graduação, também caem.
Referências
- BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários (CVM/CECOP). Pesquisa com Vítimas de Fraudes Financeiras. Rio de Janeiro, 2021.
- UNITED STATES. Federal Trade Commission (FTC). Data Spotlight — Reports show scammers cashing in on crypto craze (jun. 2022) e Who experiences scams? A story for all ages (dez. 2022).
- FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION. Internet Crime Complaint Center (IC3) — 2025 Internet Crime Report. Washington, D.C., 2026.