
Não existe um número oficial que diga exatamente quanto os brasileiros perdem por ano em golpes de criptomoeda — nenhum órgão nacional publica essa cifra isolada. O que existe são dados globais atribuíveis e o retrato oficial da CVM. No mundo, estima-se que US$ 17 bilhões foram desviados em golpes de cripto em 2025 (Chainalysis); só nos Estados Unidos, as perdas somaram US$ 11,4 bilhões (FBI).
No Brasil, o dado oficial mais próximo de uma resposta vem da Comissão de Valores Mobiliários (CVM): a criptomoeda é o produto de investimento mais citado por vítimas de fraude financeira no país. Este artigo reúne os números de 2025 e explica, com honestidade, por que a cifra brasileira exata simplesmente não existe — e por que o problema é ainda maior do que qualquer estatística sugere.
Quanto se perde no mundo com golpes de cripto
A referência internacional mais citada é o relatório anual do FBI Internet Crime Complaint Center (IC3). Na edição de 2025, publicada em abril de 2026, as perdas de norte-americanos com fraude envolvendo criptoativos alcançaram US$ 11,4 bilhões — recorde histórico do órgão e alta de 22% sobre 2024. Foram 181.565 queixas mencionando cripto, com prejuízo médio de US$ 62.604 por vítima [1].
O peso desse número impressiona: as perdas com algum nexo em criptoativos responderam por cerca de 54% de todas as perdas reportadas ao IC3 em 2025. Ou seja, mais da metade do prejuízo com crimes cibernéticos nos Estados Unidos passou por criptoativos. A maior subcategoria foi o golpe de investimento, que sozinho somou US$ 7,2 bilhões, segundo o próprio FBI.
A Chainalysis, empresa de análise on-chain, oferece o retrato global: cerca de US$ 17 bilhões desviados em golpes de cripto em 2025. Um dado dá a dimensão da profissionalização do crime — o valor médio de cada golpe subiu 253% em um único ano, de US$ 782 em 2024 para US$ 2.764 em 2025 [2]. Golpe de cripto deixou de ser artesanal; virou operação em escala.
Por que os números oficiais são um piso, não um teto
Aqui é preciso uma ressalva honesta: os dados do FBI medem apenas queixas voluntárias de vítimas nos Estados Unidos — não são o total do mundo, nem do Brasil, e nem sequer o total real dos próprios EUA. Muita gente que sofre um golpe nunca reporta o crime, por vergonha, por descrença ou por não saber a quem recorrer.
Segundo Ari Redbord, da TRM Labs, cerca de 15% das vítimas de golpe com cripto reportam o ocorrido — e a empresa contabilizou cerca de US$ 35 bilhões em fluxos ligados a fraude em 2025, mais que o dobro da estimativa global da Chainalysis [3]. A lição é direta: todo número deste artigo é o piso conhecido do problema, não o seu teto. O prejuízo real é maior do que qualquer estatística publicada consegue capturar.
O que os dados oficiais mostram sobre o Brasil
Não há, no Brasil, um levantamento anual que isole quanto se perde só com golpes de cripto. O dado oficial mais útil vem da pesquisa da CVM com vítimas de fraudes financeiras, divulgada em 2021. Nela, a criptomoeda aparece como o produto de investimento mais citado pelas vítimas — mencionada por 43,3% dos respondentes, à frente de qualquer outro produto [4].
A mesma pesquisa revela como o golpe chega até a vítima: o WhatsApp foi o canal de divulgação mais citado (27,5%), seguido da indicação boca a boca, pessoalmente (19,7%). O perfil predominante era de homens (91%), na faixa dos 30 aos 39 anos, com perdas mais comuns entre R$ 10 mil e R$ 50 mil. É importante frisar o ano: esses números são de 2021 e servem para indicar ordem de grandeza e hierarquia — não como a fotografia do ano corrente.
Para dimensionar a escala do problema, um levantamento mais recente ajuda — ainda que não seja recorte de cripto. Segundo o relatório O Estado dos Golpes no Brasil 2025, da Global Anti-Scam Alliance (GASA), 70% dos brasileiros foram vítimas de algum tipo de golpe no último ano, enfrentando em média 252 tentativas de fraude por ano [5]. O dado abrange golpes em geral — Pix, boleto, phishing, investimento —, mas mostra o terreno fértil em que os golpes de cripto prosperam.
Por que não existe uma cifra brasileira só de cripto
Se o problema é tão grande, por que falta o número? Porque nenhuma instituição brasileira — nem a Polícia Federal, nem a CVM, nem o Banco Central — consolida e publica, por ano, o valor que os brasileiros perdem especificamente em golpes com criptoativos. As estatísticas existentes ou são globais (FBI, Chainalysis), ou tratam de golpes em geral (GASA), ou são oficiais mas datadas (CVM, 2021).
É comum ver a cifra de US$ 318 bilhões — o valor que o Brasil recebeu em criptoativos on-chain entre julho de 2024 e junho de 2025, cerca de um terço de toda a América Latina — apresentada como se fosse "o tamanho do golpe". Não é. Esse número mede adoção e movimentação; a fração ilícita do fluxo brasileiro é de apenas 1%, e sua maior parcela, segundo a Chainalysis, é lavagem ligada a facções, não golpe ao consumidor [6]. Fluxo ilícito on-chain não é o mesmo que prejuízo de vítima de golpe — confundir os dois infla o problema de forma incorreta.
A resposta honesta, portanto, é dupla: os dados globais dão a ordem de grandeza — bilhões de dólares por ano, em crescimento acelerado —, e os dados brasileiros mostram que a criptomoeda é o principal vetor de fraude de investimento no país. Quem quiser entender quais golpes específicos mais atingem os brasileiros pode ver o ranking dos golpes de cripto mais comuns no Brasil. E, para quem já foi vítima, o que muda o desfecho é a rapidez da reação — as primeiras 72 horas após o golpe são as mais valiosas.
Considerações finais
Estatística de golpe é sempre um retrato parcial. Os números de 2025 — US$ 11,4 bilhões nos Estados Unidos (FBI) e cerca de US$ 17 bilhões no mundo (Chainalysis) — batem recordes e crescem a cada ano, mas subestimam o real, porque a maioria das vítimas silencia. No Brasil, falta a cifra exata, mas sobra evidência de que a criptomoeda é o produto de investimento mais explorado por golpistas.
O que essa leitura sugere não é pânico, e sim método. A transparência da blockchain, que os golpistas costumam subestimar, é justamente o que permite reconstruir o caminho do dinheiro — como detalho em rastrear bitcoin de um golpe. Diante de um caso concreto, o valor está menos na estatística e mais na prova técnica: documentar o fluxo, preservar as evidências e agir cedo. Quem quiser avaliar a viabilidade de rastreamento pode começar pelo diagnóstico preliminar, e há orientações específicas para vítimas de golpe.
Perguntas frequentes
Quanto os brasileiros perdem por ano em golpes de criptomoeda?
Não existe uma cifra oficial só de cripto no Brasil. Os dados disponíveis são globais: a Chainalysis estima US$ 17 bilhões desviados em golpes de cripto no mundo em 2025, e o FBI registrou US$ 11,4 bilhões em perdas nos Estados Unidos. No Brasil, a CVM identificou a criptomoeda como o produto de investimento mais citado por vítimas de fraude.
Qual a fonte mais confiável de estatísticas sobre golpes de cripto?
Para escala global e dos EUA, o relatório anual do FBI Internet Crime Complaint Center (IC3) e o Crypto Crime Report da Chainalysis. Para o Brasil, a pesquisa da CVM com vítimas de fraude (2021) e o levantamento da GASA sobre golpes em geral (2025). Nenhuma delas mede, isoladamente, o prejuízo brasileiro só com cripto.
Os números do FBI representam o total real de perdas?
Não. O IC3 reúne apenas queixas voluntárias de vítimas nos Estados Unidos. Segundo estimativa de Ari Redbord, da TRM Labs, cerca de 15% das vítimas reportam o crime, o que faz das cifras oficiais um piso, não um teto — e a própria TRM contabilizou cerca de US$ 35 bilhões em fluxos ligados a fraude em 2025.
Cripto é mesmo o golpe de investimento mais comum no Brasil?
Segundo a pesquisa da CVM de 2021, a criptomoeda foi o produto de investimento mais citado pelas vítimas de fraude financeira no país (43,3%), à frente de qualquer outro. O canal de abordagem mais comum foi o WhatsApp (27,5%). É a fonte oficial brasileira mais próxima de um ranking.
Por que não há uma estatística oficial só de golpes de cripto no Brasil?
Porque nenhum órgão — Polícia Federal, CVM ou Banco Central — consolida publicamente o valor perdido por brasileiros especificamente em golpes com criptoativos por ano. Os dados on-chain da Chainalysis medem adoção e fluxo ilícito, sobretudo lavagem, e não o prejuízo direto de vítimas de golpe.
Referências
- FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION. Internet Crime Complaint Center (IC3) — 2025 Internet Crime Report. Washington, D.C., 2026.
- CHAINALYSIS. 2026 Crypto Crime Report: Scams. 2026.
- TRM LABS. Estimativas de subnotificação e de perdas globais com golpes de criptoativos (declarações de Ari Redbord). 2025-2026.
- BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários (CVM/CECOP). Pesquisa com Vítimas de Fraudes Financeiras. Rio de Janeiro, 2021.
- GLOBAL ANTI-SCAM ALLIANCE (GASA). O Estado dos Golpes no Brasil 2025. 12 nov. 2025.
- CHAINALYSIS. The 2025 Geography of Cryptocurrency Report / Brazil's Crypto Crime Challenge. 18 jun. 2026.