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Rastreamento

Mixers (Tornado Cash/Wasabi): o que acontece no rastreio

Mixers (Tornado Cash/Wasabi): o que acontece no rastreio

Se o golpista usou um mixer como o Tornado Cash, o rastreamento fica mais difícil — mas nem sempre impossível. O mixer embaralha as moedas de vários usuários para quebrar a ligação entre quem enviou e quem recebeu, só que não apaga o registro na blockchain. Técnicas de demixing conseguem, com frequência, seguir o rastro através dele. O anonimato não é garantido.

A dimensão do problema aparece nos números. Ao sancionar o Tornado Cash, em agosto de 2022, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos (OFAC) apontou que o serviço fora usado para lavar mais de US$ 455 milhões desviados do ataque à Ronin Network — ligada ao jogo Axie Infinity — atribuído ao Lazarus Group, da Coreia do Norte, valor corroborado por empresas de análise on-chain como a Chainalysis [1]. Segundo a própria declaração da OFAC, o mixer teria movimentado mais de US$ 7 bilhões desde a sua criação, em 2019 [1]. É por lidar com fluxos dessa ordem que a pergunta "e se passou por um mixer?" virou rotina nas investigações de cripto.

O que um mixer faz — e o que não faz

Um mixer (ou tumbler) é um serviço que junta os fundos de muitos usuários e os redistribui, de modo que a moeda que sai do outro lado não tenha ligação óbvia com a que entrou. A ideia é interromper a lógica básica do rastreamento on-chain, que é seguir o valor de um endereço para o outro. Mas "interromper" não é "apagar": o depósito e a retirada continuam gravados na blockchain pública, com data, hora e valor. O que o mixer faz é multiplicar as combinações possíveis entre entradas e saídas — não eliminar o registro.

Vale distinguir dois tipos, porque o rastreio muda conforme a técnica. O Tornado Cash é um pool de contrato inteligente na rede Ethereum: o usuário deposita uma quantia padronizada e depois saca para um endereço novo. Já o modelo CoinJoin opera no Bitcoin, juntando várias pessoas em uma única transação colaborativa, com saídas de mesmo valor — e, a rigor, não é um mixer no sentido estrito: é um protocolo não custodial, em que os usuários combinam suas transações sem entregar as moedas a um terceiro. Seu exemplo mais conhecido, a Wasabi Wallet, teve o coordenador de coinjoin descontinuado pela desenvolvedora em 1º de junho de 2024, por insegurança regulatória; a carteira segue operando como carteira comum, e o protocolo continua disponível por outros coordenadores. São abordagens diferentes — pool de contrato de um lado, transação colaborativa do outro —, mas com o mesmo objetivo: confundir a atribuição. Nenhuma delas quebra a criptografia da rede nem torna as transações invisíveis; ambas podem ser atacadas por análise, com graus distintos de dificuldade.

Demixing: seguir o rastro através do mixer

O melhor exemplo público de que um mixer não garante anonimato veio do ataque à Harmony Horizon Bridge, em junho de 2022, quando cerca de US$ 100 milhões foram desviados e lavados pelo Tornado Cash. A empresa de análise Elliptic informou ter usado suas técnicas de demixing para rastrear os valores furtados através do Tornado Cash até novas carteiras de Ethereum, permitindo que exchanges detectassem fundos originados do ataque apesar do uso do mixer [2]. Em outras palavras: o rastro atravessa o mixer com mais esforço, não desaparece.

É preciso, porém, ser honesto sobre o alcance da técnica. O demixing não quebra a criptografia — ele aponta destinos prováveis por heurística, cruzando valores, horários e padrões de depósito e retirada. Funciona melhor contra fluxos grandes e repetitivos, como os do Lazarus Group; um mixer usado com cuidado, com valores variados, atrasos e sem reaproveitar endereços, é muito mais difícil de reverter. Não existe garantia de sucesso: a viabilidade se avalia caso a caso, e um bom parecer é transparente sobre o grau de certeza de cada salto.

Há, ainda assim, um paradoxo a favor de quem investiga. Ao tentar apagar o rastro, o lavador costuma multiplicar operações — troca de token, passagem por bridges entre redes, novos saques. A Elliptic, ao classificar o chain-hopping como o método de lavagem dominante de 2025, observou que os criminosos que tentam esconder o caminho por essa via acabam "criando mais evidências, não menos" [3]. Cada obstáculo adicional é também um novo registro — e registros são exatamente a matéria-prima do rastreamento.

O ponto que o mixer não muda: a saída na exchange

Mesmo quando o demixing aponta as carteiras de destino, permanece a etapa que decide tudo: transformar um endereço em uma pessoa. E isso o mixer não altera. Como já detalhei ao explicar o que a análise on-chain revela, o endereço na blockchain não tem nome. A identificação depende do ponto de conversão — quase sempre uma exchange sujeita a KYC, onde o cripto vira dinheiro e há cadastro com CPF ou CNPJ. É ali, no off-ramp, que a investigação reencontra o mundo real, mediante ordem judicial.

Por isso o mixer, na prática, adia e encarece o trabalho, mas raramente o encerra. O golpista precisa, em algum momento, sacar — e o saque tende a passar por um serviço que identifica clientes. O rastreamento através do mixer serve justamente para reconstruir a ponte entre o depósito inicial e esse ponto de saída, aquilo que a metodologia de forense blockchain chama de atribuição. Sem essa etapa, há um caminho na tela; com ela, há uma prova utilizável.

Usar um mixer é ilegal? O que mudou entre 2024 e 2025

Aqui mora a nuance que separa a análise séria do palpite. O status jurídico do Tornado Cash mudou. Em 26 de novembro de 2024, a Corte de Apelações do 5º Circuito dos Estados Unidos decidiu, em Van Loon v. Department of the Treasury, que os contratos inteligentes imutáveis do Tornado Cash não são "propriedade" na acepção da lei de sanções norte-americana (International Emergency Economic Powers Act, IEEPA) e, portanto, não poderiam ter sido sancionados [4]. Na sequência, em 21 de março de 2025, a OFAC removeu o Tornado Cash de sua lista de sanções [5]. No presente, portanto, o protocolo não está sancionado.

Isso não significa, contudo, que usar um mixer para lavar dinheiro seja lícito. Em 6 de agosto de 2025, Roman Storm, um dos desenvolvedores do Tornado Cash, foi condenado no Tribunal Federal do Distrito Sul de Nova York por conspiração para operar um negócio de transmissão de dinheiro sem licença; nas acusações mais graves — lavagem de dinheiro e violação de sanções — o júri não chegou a consenso, e o Departamento de Justiça pediu novo julgamento [6]. Segundo a IRS-CI, o serviço facilitou mais de US$ 1 bilhão em transações ilícitas. A lição é direta: a ferramenta saiu da lista de sanções, mas empregá-la para ocultar a origem de valores ilícitos segue sendo conduta criminalizável.

No Brasil, o raciocínio se traduz na moldura da lavagem de dinheiro: ocultar ou dissimular a origem de valores de proveniência criminosa é, em tese, o núcleo do artigo 1º da Lei nº 9.613/98. No livro Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime, classifiquei justamente essas operações — mixers, CoinJoin, bridges — como "transações complexas", em oposição às simples, que se seguem de forma direta [7]. Complexas não quer dizer impenetráveis; quer dizer que exigem método.

Mixer e Monero são limites diferentes

Convém não confundir dois obstáculos que costumam ser tratados como se fossem a mesma coisa. Um mixer embaralha transações que continuam gravadas em uma blockchain pública — por isso o rastro pode ser atacado por demixing, com esforço. Uma moeda de privacidade como o Monero é outra história: ela oculta remetente, valor e destinatário por padrão, no próprio protocolo, e ali o rastro on-chain praticamente morre. Explico esse caso à parte em por que o Monero é (quase) irrastreável. Em resumo: o mixer aumenta o custo do rastreio; o Monero, em regra, o inviabiliza on-chain — e a saída, nos dois casos, volta a ser o ponto de conversão.

Considerações finais

A resposta honesta à pergunta "e se ele usou um mixer?" não é o otimismo de quem promete rastrear tudo, nem o derrotismo de quem dá o caso por perdido. O mixer aumenta o custo e a incerteza do rastreamento, mas não garante anonimato: o registro permanece público, o demixing frequentemente recupera parte do caminho e o ponto de saída em uma exchange continua sendo onde a investigação chega a uma identidade. O que muda é o grau de dificuldade — e a exigência de método.

Para o advogado ou o perito que recebe um caso assim, o valor está em um parecer que seja transparente sobre o que é certeza e o que é probabilidade — porque é essa honestidade que dá solidez à prova. A Chainspect trata essas transações complexas como o que são: mais trabalhosas, não necessariamente sem saída, e sempre com registro claro do grau de confiança de cada etapa. Quem precisa instruir um processo encontra orientação específica na página para advogados, e quem quer avaliar a viabilidade do próprio caso pode começar pelo diagnóstico preliminar.

Perguntas frequentes

É possível rastrear bitcoin que passou por um mixer como o Tornado Cash?

Na maioria dos casos, com mais dificuldade, sim. O mixer embaralha as moedas para quebrar a ligação entre origem e destino, mas não apaga o registro na blockchain. Técnicas de demixing conseguem, com frequência, seguir o rastro através do mixer — como a Elliptic fez ao rastrear os fundos do ataque à Harmony Horizon pelo Tornado Cash. O resultado é probabilístico e varia conforme o cuidado do lavador.

O que é demixing no rastreamento de criptoativos?

Demixing é o conjunto de técnicas forenses que tentam reverter o embaralhamento feito por um mixer, religando os depósitos às retiradas por análise de valores, horários e padrões. Não quebra a criptografia: aponta destinos prováveis por heurística. Funciona melhor contra grandes fluxos com padrão e é muito mais difícil quando o mixer é usado com valores variados, atrasos e sem reuso de endereço.

Usar um mixer como o Tornado Cash é crime?

Depende do uso e da jurisdição. Nos EUA, o Tornado Cash foi retirado da lista de sanções da OFAC em 2025, após o 5º Circuito decidir que seus contratos inteligentes imutáveis não eram propriedade sancionável. Mas um dos desenvolvedores, Roman Storm, foi condenado em 2025 por operar transmissão de dinheiro sem licença. O protocolo saiu das sanções, mas usá-lo para ocultar a origem de valores ilícitos segue sendo conduta criminalizável.

Qual a diferença entre um mixer e uma moeda de privacidade como o Monero?

Um mixer embaralha transações que continuam gravadas numa blockchain pública — por isso o rastro pode ser atacado por demixing. Uma moeda de privacidade como o Monero oculta remetente, valor e destinatário por padrão, no próprio protocolo, e ali o rastro on-chain praticamente morre. São dois limites diferentes: o mixer aumenta o custo do rastreio; o Monero, em regra, o inviabiliza on-chain.

O rastreamento através de um mixer serve como prova em processo?

Sim, desde que documentado com método e cadeia de custódia. Como o demixing é probabilístico, o parecer precisa ser transparente sobre o grau de certeza de cada salto e sobre onde a análise se apoia em heurística. A identificação de uma pessoa, porém, continua dependendo do ponto de saída em uma exchange com cadastro e de ordem judicial — o mixer não altera essa etapa.

Referências

  1. U.S. DEPARTMENT OF THE TREASURY / OFAC. U.S. Treasury Sanctions Notorious Virtual Currency Mixer Tornado Cash. Washington, D.C., 8 ago. 2022. (US$ 455 mi do hack da Ronin corroborado por análise on-chain da Chainalysis; US$ 7 bi conforme declaração da própria OFAC.)
  2. ELLIPTIC. The $100 million Horizon hack: following the trail through Tornado Cash to North Korea. 2022.
  3. ELLIPTIC. Chain-hopping: the defining money laundering method of 2025. 27 nov. 2025.
  4. UNITED STATES COURT OF APPEALS FOR THE FIFTH CIRCUIT. Van Loon v. Department of the Treasury. 26 nov. 2024.
  5. U.S. DEPARTMENT OF THE TREASURY / OFAC. Tornado Cash Delisting. Washington, D.C., 21 mar. 2025 (release sb0057).
  6. INTERNAL REVENUE SERVICE — CRIMINAL INVESTIGATION (IRS-CI). Founder of Tornado Cash crypto mixing service convicted of knowingly transmitting criminal proceeds. 6 ago. 2025.
  7. MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.