
Os golpes no Brasil usam tanto o USDT na rede TRON por quatro razões práticas, não ideológicas: taxas baixas (transferir USDT na TRON custa centavos, contra vários dólares na rede Ethereum), velocidade (segundos por transação), liquidez em dólar e estabilidade. Foi essa combinação que transformou a stablecoin no trilho padrão do crime on-chain — e a TRON, a rede desse trilho.
Não se trata de percepção. Um relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), de 2024, aponta o USDT na rede TRON como o meio preferido para fraude cibernética e lavagem de dinheiro, justamente pelas taxas baixas e pela alta liquidez [1]. E a escala é enorme: segundo a empresa de inteligência TRM Labs, as stablecoins responderam por 86% de todos os fluxos ilícitos on-chain no mundo em 2025, tornando-se a principal camada por onde circula o crime em criptoativos [2]. No Brasil, o padrão PIX → USDT na TRON aparece na maior parte dos casos que chegam para análise.
As quatro razões práticas por trás da escolha
As vantagens que atraem o golpista são as mesmas que atraem o usuário legítimo. Os atributos das stablecoins se resumem a três — velocidade, liquidez e proteção contra a volatilidade —, e a rede TRON acrescenta uma quarta, decisiva: o custo baixíssimo. Na prática, são quatro fatores que se somam:
- Taxas baixas: transferir USDT na rede TRON custa centavos; a mesma operação na rede Ethereum pode custar vários dólares.
- Velocidade: a transação se confirma em segundos, o que permite fracionar e mover os valores antes de qualquer reação da vítima.
- Liquidez em dólar: o USDT é a stablecoin mais líquida do mundo — fácil de converter e sacar em quase qualquer exchange.
- Estabilidade: o saldo fica atrelado ao dólar e não oscila, ao contrário do Bitcoin.
A estabilidade merece destaque porque é o que engana. O USDT é uma stablecoin — uma criptomoeda atrelada ao dólar, que vale sempre cerca de US$ 1 (vale entender melhor o que é o USDT). Num falso investimento, o saldo parado em "dólares" transmite uma sensação de segurança que um saldo em Bitcoin, oscilando a cada hora, não transmitiria. É uma leitura do desenho do golpe, não uma estatística — mas ajuda a entender por que a stablecoin, e não uma cripto volátil, virou a preferida.
O que os dados mostram: a stablecoin virou o trilho do crime
Dois levantamentos de firmas de inteligência on-chain, em anos diferentes, apontam na mesma direção. A Chainalysis identificou que as stablecoins responderam por 63% de todo o volume ilícito on-chain em 2024 [3]; a TRM Labs mediu 86% em 2025 [2]. São escopos globais — não recortes do Brasil, nem "percentual de golpes brasileiros" —, mas a mensagem é inequívoca: a fatia do crime que passa por stablecoins não só é majoritária como está crescendo.
O sentido dessa migração é fácil de entender. O criminoso saiu do Bitcoin — volátil e caro de mover — e foi para o "dólar digital", estável e barato. É o mesmo raciocínio de um lavador que troca malas de dinheiro por transferências: não muda o objetivo, muda o instrumento por outro mais eficiente. Convém, porém, a ressalva honesta: esses percentuais medem o fluxo ilícito, não o prejuízo direto das vítimas de golpe, e são cifras do mundo, não do Brasil. Servem para mostrar qual trilho o crime escolheu — não para dizer quanto o brasileiro perdeu.
Por que a rede TRON, especificamente
Se a stablecoin é o trilho, a TRON é a rede sobre a qual esse trilho corre. Entre as blockchains, a TRON é a que mais concentra fluxo ilícito, segundo a TRM Labs — reflexo direto de reunir, no mesmo lugar, taxas baixas, contratos inteligentes e as stablecoins mais populares [2]. No Brasil, o roteiro é quase sempre o mesmo: a vítima faz um PIX, o valor é convertido em USDT dentro de uma exchange e, a partir daí, passa a circular na rede TRON — o ponto em que o banco termina e a blockchain começa. É por isso que "USDT na TRON" virou quase sinônimo de golpe de investimento no país.
Esse domínio não é exclusivo do crime. Dados da Receita Federal indicam que as stablecoins concentram cerca de 80% do volume de criptoativos declarado no Brasil, com o USDT à frente do próprio Bitcoin [4]. Ou seja: o USDT já é a cripto padrão do brasileiro — e o golpista apenas segue o dinheiro para onde ele está. Escolher a TRON não é um golpe de gênio criminoso; é ocupar a infraestrutura que a maior parte do mercado legítimo já usava.
O outro lado da moeda: a escolha que expõe o golpista
Aqui está o paradoxo que interessa a quem investiga: a mesma escolha que favorece o golpista se volta contra ele. A rede TRON é pública e permanente — cada transação de USDT fica registrada e pode ser seguida de carteira em carteira, o oposto de "dinheiro que sumiu". É um terreno altamente rastreável, como mostra o passo a passo de como rastrear USDT na rede TRON. A conveniência que faz o golpista preferir esse trilho é a mesma que deixa o rastro à mostra.
Há mais. Diferente do Bitcoin, o USDT tem um emissor — a Tether — com poder técnico de congelar valores em endereços específicos. Em 23 de abril de 2026, a Tether congelou US$ 344 milhões em USDT na rede TRON, em coordenação com o OFAC e autoridades dos Estados Unidos — a maior ação do tipo em sua história [5]. E a própria rede virou alvo de uma força-tarefa dedicada: a T3 Financial Crime Unit, que reúne Tether, TRON e TRM Labs, informou ter congelado mais de US$ 450 milhões em ativos ilícitos, com aumento de 43,9% no volume interceptado em 2025, atuando junto a autoridades de cerca de 23 jurisdições [6]. Escolher a TRON por "conveniência" é também entrar na rede onde o emissor da moeda, o operador da blockchain e uma firma forense colaboram para travar fundos ilícitos.
Considerações finais
A resposta à pergunta "por que os golpes usam tanto USDT na TRON" é, no fim, prosaica: porque é barato, rápido, líquido e estável — os mesmos atributos que fazem do USDT a cripto mais usada pelo brasileiro honesto. O crime não inventou um trilho próprio; ocupou o trilho que já existia. Entende-se que reconhecer isso muda a postura de quem investiga: em vez de tratar a stablecoin como um beco sem saída, o caminho é explorar a transparência da rede que o golpista subestima.
Para a vítima e para o advogado que a assiste, a consequência prática é direta: o valor não está em lamentar a escolha da rede, e sim em documentar o fluxo com método. A Chainspect realiza esse tipo de rastreamento e produz o parecer técnico correspondente, que pode servir de assistência técnica ao advogado na hora de pedir bloqueio, quebra de sigilo ou cooperação internacional. Quem ainda está dimensionando o problema pode ver as estatísticas de golpes com cripto no Brasil; quem já foi vítima encontra orientação na página para vítimas de golpe.
Perguntas frequentes
Por que os golpes no Brasil usam tanto USDT na rede TRON?
Por quatro razões práticas: taxas baixas (transferir USDT na TRON custa centavos), velocidade (segundos por transação), liquidez em dólar e estabilidade de preço. As stablecoins reúnem velocidade, liquidez e proteção contra a volatilidade — exatamente o que um golpista busca para mover valores rápido, sem que a vítima perceba oscilação no saldo.
Usar a rede TRON deixa o golpista anônimo?
Não. A rede TRON é pública e permanente: cada transferência de USDT fica registrada e pode ser seguida de carteira em carteira. O golpista ganha velocidade e custo baixo, não anonimato. A dificuldade não está em ver o fluxo, e sim em atribuir os endereços a uma pessoa real — o que costuma acontecer quando os valores passam por uma exchange com cadastro.
USDT é mais movimentado que o Bitcoin no Brasil?
Sim. Dados da Receita Federal indicam que as stablecoins concentram cerca de 80% do volume de criptoativos declarado no país, com o USDT à frente do Bitcoin. No Brasil, o USDT deixou de ser "mais uma cripto" e virou a cripto padrão — e o crime apenas segue o dinheiro para onde ele já está.
Se a stablecoin domina o crime on-chain, o USDT é uma cripto do crime?
Não. As mesmas taxas baixas, liquidez e estabilidade que atraem golpistas fazem do USDT a stablecoin mais usada pelo público legítimo. Os percentuais de 63% (Chainalysis, 2024) e 86% (TRM Labs, 2025) medem o fluxo ilícito global on-chain — não dizem que o USDT em si seja ilícito. O criminoso ocupou um trilho que já existia; não criou um.
Referências
- UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME (UNODC). Relatório regional de 2024 sobre lavagem de dinheiro, banca clandestina e fraude cibernética no Leste e no Sudeste Asiático, que identifica o USDT na rede Tron como meio preferencial dessas operações. 2024.
- TRM LABS. 2026 Crypto Crime Report / Stablecoins at Scale: Broad Adoption and Highly Concentrated Illicit Networks. 2026.
- CHAINALYSIS apud INTERNATIONAL COMPLIANCE ASSOCIATION. Stablecoins: The New Epicentre of Crypto Fraud. 2026 (dados de 2024).
- BRASIL. Receita Federal. Criptoativos: Receita Federal detecta crescimento na movimentação de stablecoins. out. 2023.
- Cobertura da CoinDesk, de 23 abr. 2026, sobre o comunicado da Tether que anunciou o congelamento de mais de US$ 344 milhões em USD₮ na rede Tron, em coordenação com o OFAC e autoridades dos Estados Unidos.
- Balanço da T3 Financial Crime Unit (Tether/TRON/TRM Labs) sobre ativos ilícitos congelados — dados de 2025, noticiado pelo The Block (2026).