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Rastreamento

Por que o Monero (XMR) é (quase) inrastreável

Por que o Monero (XMR) é (quase) inrastreável

Dá para rastrear Monero? Pela blockchain, praticamente não. O Monero (XMR) foi desenhado para ser irrastreável on-chain: por padrão, oculta quem enviou, quem recebeu e quanto foi transferido. As três operações que sustentam o rastreamento de Bitcoin e USDT — seguir endereço a endereço, ler o valor e agrupar carteiras de um mesmo dono — simplesmente não funcionam nele.

O "quase" do título não é retórica. Seguir o rastro on-chain do Monero é, na prática, inviável com as técnicas atuais — mas identificar quem está por trás de uma transação nem sempre é impossível, desde que a investigação saia da blockchain. A dificuldade tem um termômetro eloquente: em 2020, a Receita Federal dos Estados Unidos (IRS) chegou a oferecer até US$ 625 mil por uma ferramenta capaz de rastrear Monero, segundo noticiaram a Decrypt e a Forbes — e os contratos foram para empresas como a Chainalysis [1]. Se acompanhar o dinheiro em XMR fosse trivial, o fisco de um país inteiro não estaria pagando por isso. Por isso, aqui, a honestidade técnica vale mais do que qualquer promessa: quem garante rastrear Monero on-chain está oferecendo o que a física da rede não entrega.

Como o Monero apaga os três rastros que o Bitcoin deixa

Para entender por que o Monero é diferente, vale lembrar como funciona o rastreamento comum. No Bitcoin e no USDT, a blockchain é um livro-caixa aberto: cada transação mostra o endereço de origem, o de destino e o valor, e é seguindo esses três dados de carteira em carteira que a forense blockchain reconstrói o caminho do dinheiro, como detalhei ao explicar o rastreamento de bitcoin de um golpe. O Monero foi criado justamente para apagar os três.

Ele faz isso com três tecnologias que agem juntas e por padrão. As ring signatures (assinaturas em anel) misturam o remetente real a vários chamarizes tirados da própria blockchain, de modo que não se sabe qual dos endereços de fato enviou. Os stealth addresses (endereços furtivos) geram um endereço de uso único a cada transação, escondendo o destinatário. E o RingCT cifra o valor transacionado. Segundo a documentação do próprio projeto, não há como enviar, por engano, uma transação transparente — a privacidade é obrigatória, não opcional [2]. Há ainda uma camada de rede, o Dandelion++, que dificulta ligar uma transação ao endereço de IP que a originou.

Por que "quase": as brechas que o protocolo corrigiu

Se a privacidade é tão sólida, por que o título diz "quase"? Porque nem sempre foi assim. Um estudo acadêmico de referência, de Malte Möser e coautores, publicado em 2018, mostrou que, antes de o RingCT se tornar obrigatório (janeiro de 2017), o Monero tinha falhas exploráveis: uma heurística simples de "chamariz mais recente" acertava a entrada verdadeira em cerca de 80% das transações que usavam mixins, e as chamadas entradas de "mixin zero" — transações feitas sem nenhum chamariz — permitiam análise em cadeia [3].

Essas brechas foram, em boa parte, fechadas pelo próprio protocolo — com o RingCT obrigatório e o aumento do tamanho mínimo do anel. Ou seja: o Monero de anos atrás era bem mais rastreável do que o atual, e transações feitas naquele período podem, em tese, guardar vulnerabilidades. Mas tratar o Monero de hoje como se ainda tivesse essas falhas seria um erro técnico. O "quase" reconhece a história; não descreve o presente.

Rastrear Monero é mais probabilidade do que certeza

Existem empresas que oferecem "rastreamento" de Monero, e é preciso ler essa oferta com cuidado. As ferramentas não quebram a criptografia da rede — o que fazem é estimar, por probabilidade, eliminando chamarizes e cruzando dados de fora da blockchain. O próprio Dave Jevans, então executivo da CipherTrace, uma das primeiras empresas a anunciar uma ferramenta do tipo, admitiu que rastrear Monero é "mais sobre probabilidades do que certezas", e pesquisadores da comunidade contestaram a eficácia real dessas soluções [4].

Essa é a diferença central em relação a um mixer como o Tornado Cash. Um mixer embaralha, mas não apaga: em muitos casos é possível "desmisturar" e reencontrar o rastro. No Monero, não existe um rastro on-chain confiável a reencontrar — o dado nunca esteve visível. Por isso, quando há identificação num caso com XMR, ela quase nunca vem da blockchain. Vem de outro lugar.

Onde a investigação ganha tração: os pontos de conversão

O golpista que converte valores em Monero enfrenta um problema prático: uma hora ele precisa transformar o XMR em dinheiro utilizável. E, para isso, quase sempre tem de passar por uma corretora — o mesmo elo que, no rastreamento de criptoativos comuns, costuma ser o ponto de identificação. É nesses pontos de conversão, na entrada e na saída, que a investigação encontra apoio: cadastros de KYC, registros de compra e venda, dados que a corretora guarda sobre quem operou.

Esse gargalo vem se estreitando. Por pressão regulatória, diversas corretoras removeram o Monero de suas listas — a Binance anunciou o delisting em fevereiro de 2024, e OKX, Kraken e Huobi tomaram medidas semelhantes, segundo a cobertura de veículos como a CoinDesk [5]. O efeito é duplo: fica mais difícil para o golpista sacar o XMR, e os poucos pontos de conversão que restam são exatamente onde a investigação se concentra. Some-se a isso a prova off-chain — erros de segurança do próprio usuário, dados de exchange, apreensão de dispositivos — e entende-se por que, mesmo "irrastreável" na blockchain, o Monero não torna todo caso automaticamente perdido.

O limite honesto para o caso concreto

Para o advogado ou o perito que recebe um caso em que o dinheiro virou Monero no meio do caminho, a orientação técnica precisa ser franca. Diferente do Bitcoin e do USDT, não existe "seguir o dinheiro" on-chain confiável no Monero: o trecho do fluxo que passou por XMR tende a permanecer no escuro. No livro Bitcoin e Lavagem de Dinheiro, classifico operações que rompem a ligação direta entre origem e destino como transações complexas, em oposição às simples; o Monero é o ponto extremo dessa escala [6]. O que continua investigável são as pontas — onde o golpista comprou o Monero e onde tentou vendê-lo —, além dos elementos de prova que não dependem da blockchain.

É esse o trabalho que um exame sério entrega num caso com Monero: mapear os pontos de conversão, reunir a prova off-chain e dizer, com clareza, o que a rede permite e o que não permite. A Chainspect trata esse tipo de caso pela via da honestidade técnica — o parecer identifica onde a investigação pode ganhar tração e serve de assistência técnica ao advogado, sem prometer um rastreio on-chain que a arquitetura do Monero não autoriza. Quando a conversão em XMR realmente encerra o rastro, dizer isso é parte do serviço, e um diagnóstico preliminar honesto é o que separa o que dá do que não dá para fazer.

Considerações finais

O Monero é o caso mais difícil do rastreamento de criptoativos, e é preciso ser direto sobre isso. A transparência da blockchain, que no Bitcoin e no USDT joga a favor da vítima, foi deliberadamente removida no Monero: remetente, destinatário e valor estão cifrados por padrão, e as técnicas usuais de análise on-chain não os alcançam. Prometer o contrário é desinformação — ou, pior, o discurso de quem vende esperança.

Ainda assim, "irrastreável on-chain" não é sinônimo de "caso perdido". A investigação apenas muda de terreno: sai da blockchain e vai para os pontos de conversão e a prova off-chain, onde erros de segurança, cadastros de corretoras e o trabalho investigativo tradicional ainda podem apontar caminhos. Para quem foi vítima, ou para o advogado que instrui o processo, o passo mais produtivo é uma avaliação técnica honesta — que diga, sem rodeios, até onde a análise consegue ir.

Perguntas frequentes

Dá para rastrear Monero (XMR)?

Pela blockchain, praticamente não. O Monero oculta remetente, destinatário e valor por padrão, e as técnicas que seguem o dinheiro no Bitcoin e no USDT não funcionam nele. Quando há identificação num caso com Monero, ela costuma vir dos pontos de conversão — as corretoras onde o XMR é comprado ou vendido — e de provas fora da blockchain, não do rastro on-chain.

Por que o Monero é mais difícil de rastrear que o Bitcoin?

Porque foi desenhado para isso. Enquanto a blockchain do Bitcoin mostra origem, destino e valor de cada transação, o Monero esconde os três: as ring signatures misturam o remetente com chamarizes, os stealth addresses ocultam o destinatário e o RingCT cifra o valor. A privacidade é obrigatória, e não uma opção — não há como enviar uma transação transparente por engano.

Se o golpista converteu meu dinheiro em Monero, o caso está perdido?

Não necessariamente. O trecho do fluxo que passou por Monero tende a ficar no escuro, mas as pontas continuam investigáveis: onde o golpista comprou o XMR e onde tentou vendê-lo, normalmente em corretoras que guardam dados cadastrais. A investigação muda de terreno — dos dados on-chain para a prova off-chain —, mas nem sempre termina ali.

Existe ferramenta que rastreia Monero de verdade?

Há ferramentas que oferecem estimativas probabilísticas, eliminando chamarizes e cruzando dados de fora da blockchain, mas elas não quebram a criptografia do Monero nem entregam certeza on-chain. Não à toa, a Receita Federal dos Estados Unidos pagou por soluções desse tipo em 2020. Desconfie de quem promete rastreamento de Monero com garantia de resultado: a rede não permite essa promessa.

Referências

  1. INTERNAL REVENUE SERVICE (IRS). Solicitação de ferramenta de rastreamento de Monero (recompensa de até US$ 625 mil). Set. 2020 (noticiado por Decrypt e Forbes).
  2. MONERO PROJECT. What is Monero (XMR)? e Moneropedia: Ring Signatures, Stealth Address e Ring CT. getmonero.org (documentação técnica do protocolo).
  3. MÖSER, Malte et al. An Empirical Analysis of Traceability in the Monero Blockchain. Proceedings on Privacy Enhancing Technologies (PoPETs), 2018.
  4. TRM LABS. The Rise of Monero: Traceability, Challenges, and Research Review. (inclui a avaliação de Dave Jevans/CipherTrace sobre o caráter probabilístico do rastreio de Monero).
  5. COINDESK. Binance to Delist Monero Privacy Token; XMR Slides. 6 fev. 2024 (com cobertura convergente de The Block e Decrypt).
  6. MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.