
Não. Registrar o boletim de ocorrência não rastreia, sozinho, o seu dinheiro. O BO formaliza o crime e abre a porta para a investigação — é o primeiro passo, necessário e indispensável (art. 5º do Código de Processo Penal). Mas seguir o rastro dos valores na blockchain é uma etapa técnica separada, que o registro do BO não executa por si.
A distinção importa porque a escala do problema é grande e a reação da vítima costuma começar torta. Segundo o FBI Internet Crime Complaint Center (IC3), as perdas com golpes envolvendo criptoativos reportadas nos Estados Unidos chegaram a US$ 9,3 bilhões em 2024 — alta de 66% sobre o ano anterior [1]. Diante de um prejuízo desses, é comum pensar que, feito o boletim, a polícia automaticamente "segue o dinheiro". Não é assim: registrar a ocorrência e rastrear os valores são coisas diferentes.
Este artigo separa as duas — o que o boletim de ocorrência faz, o que ele não faz e onde entra a perícia particular de blockchain — para que a vítima concentre energia nas medidas que realmente movem o caso.
O que o boletim de ocorrência faz — e o que não faz
O boletim de ocorrência é a notícia-crime: o ato que leva o fato ao conhecimento da autoridade e permite instaurar o inquérito policial. Nos crimes de ação penal pública, o inquérito começa de ofício ou a requerimento do ofendido, nos termos do art. 5º, incisos I e II, do Código de Processo Penal [2]. Registrar o BO, portanto, não é formalidade dispensável — é ele que aciona a máquina investigativa e habilita atos que a vítima sozinha não pode praticar, como a requisição de dados cadastrais a uma exchange, que na investigação de lavagem o delegado ou o Ministério Público fazem diretamente, com base no art. 17-B da Lei nº 9.613/98. Já a quebra do sigilo das movimentações é outra coisa: segue o art. 1º, §4º, da Lei Complementar nº 105/2001 e depende de autorização judicial — registrando-se que o enquadramento das corretoras de criptoativos nessa lei é construção ainda em disputa, não questão assentada [3].
O que o BO não faz é rastrear, por si só, o caminho do dinheiro na blockchain. Como já detalhado no guia sobre o que fazer nas primeiras 72 horas após um golpe, o registro deve ser feito de imediato, com as provas em mãos — prints, TXIDs (o identificador único de cada transação) e comprovantes. O rastreamento forense é uma etapa complementar, técnica, que fortalece a investigação sem se confundir com ela.
Por que a delegacia, sozinha, muitas vezes não rastreia
Aberto o inquérito, uma dificuldade prática aparece: rastrear criptoativos exige ferramentas e conhecimento especializados que nem toda delegacia tem à disposição. Os institutos de criminalística no Brasil frequentemente não dispõem de softwares de rastreamento como Chainalysis Reactor, Arkham Intelligence ou Crystal Blockchain — insumos que traduzem o emaranhado de transações on-chain em um fluxo legível. Soma-se a isso o volume de casos e a fila de perícias. O resultado é que um BO bem registrado pode ficar à espera de uma análise técnica que a estrutura pública nem sempre consegue produzir com a rapidez que a cripto exige.
Foi para enfrentar exatamente essa lacuna que se consolidou, na prática, uma divisão de trabalho entre a forense particular e a autoridade pública: a forense particular produz o parecer técnico que acelera a investigação, e a autoridade detém os meios coercitivos — bloqueio, quebra de sigilo, busca e apreensão. Nesse esforço, o GRINPA — Guia de Rastreamento e Investigação Patrimonial, difundido pelo MJSP em abril de 2026 — reúne, para o agente público, ferramentas e metodologias de rastreamento patrimonial diante de estruturas descentralizadas e de ativos digitais [4]. O arranjo está aprofundado na análise sobre o rastreamento de criptoativos pelas autoridades.
Onde entra a perícia particular
A perícia particular é o trabalho do assistente técnico — figura prevista no art. 159, §3º, do Código de Processo Penal, que a parte pode indicar para acompanhar e reforçar a prova pericial [5]. Em fraudes com cripto, esse profissional reconstrói o fluxo dos valores na blockchain, atribui endereços a exchanges e documenta tudo com cadeia de custódia, entregando um parecer que instrui o inquérito e os pedidos judiciais de bloqueio. O ponto central: a perícia particular atua em paralelo ao BO, não em vez dele. Ela complementa a via oficial — como está detalhado no artigo sobre o papel do assistente técnico e do laudo pericial em blockchain.
A velocidade explica por que esse reforço faz diferença. Cripto se move em segundos, enquanto a via estritamente oficial pode ser lenta — um pedido de cooperação internacional para uma exchange estrangeira leva de 3 a 18 meses. Um parecer particular produzido logo no início encurta esse caminho. Em 2025, o Valor Econômico noticiou um caso em que R$ 12 milhões em criptoativos foram rastreados em 23 dias, com identificação e prisão dos investigados, justamente por essa articulação entre a análise técnica e a autoridade [6].
BO e perícia não competem — se somam
A conclusão honesta não é "o BO é inútil" nem "a perícia dispensa a polícia". É o contrário: as duas medidas se somam. O boletim é o primeiro passo indispensável — sem ele não há inquérito, não há quebra de sigilo, não há bloqueio. A perícia particular é o que dá substância técnica a esse inquérito, apontando para onde os valores foram e para quem o ofício de bloqueio deve ser expedido. Não há uma taxa pública confiável de quantos BOs de golpe com cripto terminam em recuperação; o que se sabe é que o desfecho depende da qualidade da prova técnica e da rapidez com que ela chega às mãos da autoridade.
Um alerta indispensável para a vítima: perícia particular não é "empresa que recupera seu dinheiro". O trabalho forense produz evidência — um parecer com validade jurídica —, não a devolução dos valores, que depende de decisão judicial e da cooperação das corretoras. Quem promete recuperação garantida mediante taxa antecipada está aplicando o recovery scam, o golpe depois do golpe. A diferença entre uma coisa e outra está detalhada no artigo sobre empresa de "recuperação" × perícia forense.
Considerações finais
Registrar o boletim de ocorrência adianta, sim — é o ato que abre a investigação e habilita as medidas que só a autoridade pode tomar. O que ele não faz é rastrear o dinheiro sozinho. Entende-se que a resposta mais eficaz combina as duas frentes: o BO, que formaliza e instaura, e a perícia particular, que produz a prova técnica em paralelo, aproveitando a janela inicial em que os valores ainda estão ao alcance.
É nesse rastreamento que a Chainspect atua: produz o parecer que instrui a investigação e as medidas judiciais cabíveis — evidência com validade jurídica, não promessa de resultado. Para quem quer entender os primeiros passos, o guia sobre o que fazer ao ser vítima de um golpe com criptoativos e o diagnóstico preliminar de viabilidade são o ponto de partida.
Perguntas frequentes
Registrar boletim de ocorrência já rastreia meu dinheiro?
Não. O BO formaliza o crime e permite instaurar o inquérito (art. 5º do CPP), mas não rastreia o dinheiro por si só. O rastreamento do fluxo na blockchain é uma etapa técnica separada, feita por perícia especializada. Registrar o BO é necessário, mas não suficiente para seguir os valores.
Registrar o BO de um golpe com cripto adianta?
Sim, adianta e é indispensável: é o boletim que abre a investigação e habilita atos que a vítima sozinha não pode praticar, como a requisição direta de dados cadastrais em exchanges. O que ele não faz é rastrear os valores automaticamente — para isso entra a perícia de blockchain, que atua em paralelo.
A polícia rastreia a cripto depois que eu registro o BO?
Nem sempre com a rapidez necessária. Muitos institutos de criminalística não dispõem das ferramentas especializadas de rastreamento, e há fila de perícias. Por isso, na prática, a perícia particular e a autoridade se dividem: a perícia particular produz o parecer que acelera a investigação, e a autoridade executa os atos coercitivos.
Preciso de perícia particular se já registrei o boletim de ocorrência?
As duas medidas se somam, não competem. O BO instaura o inquérito; a perícia particular produz a prova técnica que aponta para onde os valores foram e instrui o pedido de bloqueio. Contratar a perícia em paralelo ao BO aproveita a janela inicial, quando a cripto ainda não se dissipou.
A perícia particular recupera meu dinheiro?
Não. A perícia produz evidência — um parecer com cadeia de custódia que documenta o caminho dos valores. A devolução depende de decisão judicial, do bloqueio dos ativos e da cooperação das corretoras. Quem promete recuperação garantida mediante taxa antecipada está aplicando o recovery scam, o golpe depois do golpe.
Referências
- FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION. Internet Crime Complaint Center (IC3) — 2024 Internet Crime Report. Washington, D.C., 2025.
- BRASIL. Código de Processo Penal (Decreto-Lei nº 3.689/1941), art. 5º, incisos I e II (instauração do inquérito policial).
- BRASIL. Lei nº 9.613, de 3 de março de 1998 (lavagem de dinheiro), art. 17-B (requisição direta de dados cadastrais pela autoridade); Lei Complementar nº 105, de 10 de janeiro de 2001, art. 1º, §4º (quebra de sigilo das movimentações, mediante autorização judicial).
- BRASIL. Ministério Público Militar; Conselho Superior da Justiça do Trabalho. GRINPA — Guia de Rastreamento e Investigação Patrimonial. Ação 8 da ENCCLA, 2025; difusão pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em abr. 2026.
- BRASIL. Código de Processo Penal, art. 159, §3º (indicação de assistente técnico pela parte), com a redação da Lei nº 11.690/2008.
- VALOR ECONÔMICO. Reportagem sobre rastreamento de R$ 12 milhões em criptoativos em 23 dias. 2025.