Diagnóstico gratuito
Glossário

O que é análise on-chain (e quando vira prova)

Análise on-chain é examinar o registro público e permanente de uma blockchain para reconstruir o fluxo de valores — de qual endereço saíram, por onde passaram e onde estão —, partindo de um TXID ou de um endereço de carteira. Para o advogado, o ponto central é este: conduzida com metodologia e cadeia de custódia, essa análise vira prova pericial.

A definição vem do próprio vocabulário da perícia digital. Segundo o glossário da Chainalysis, empresa de análise de blockchain, a forense de blockchain é "a disciplina de rastrear, analisar e documentar transações de criptoativos para produzir evidência adequada a processos judiciais, investigações criminais e conformidade regulatória" [1]. A análise on-chain é o núcleo desse trabalho: seguir e reconstruir o caminho do dinheiro no registro da rede.

Três níveis que não se confundem

Convém separar três coisas que costumam ser tratadas como sinônimos. Abrir um explorador de blocos e ler uma transação isolada — origem, destino, valor, data — é o grau zero: qualquer pessoa faz, sem conta nem senha. A análise on-chain vai além: reconstrói o fluxo completo, ligando transação a transação e endereço a endereço até um ponto de interesse. E a forense blockchain completa acrescenta a esse fluxo a atribuição dos endereços a pessoas ou entidades, o rigor pericial e a cadeia de custódia.

Por que a análise on-chain serve de prova

Para quem vai levar o resultado a um processo, o valor da análise on-chain está na reprodutibilidade. Como o registro é público, um juiz, um perito ou a parte contrária podem repetir a mesma consulta e chegar ao mesmo resultado, de forma independente. É isso que dá à análise força probatória — não a autoridade de quem a assinou.

No Brasil, esse lastro está no Código de Processo Penal: a cadeia de custódia dos vestígios digitais (art. 158-A, incluído pela Lei nº 13.964/2019) e a disciplina da perícia e do assistente técnico (art. 159) [2]. A preservação dos dados segue a norma internacional ISO/IEC 27037 [3]. No exterior, a lógica é a mesma: nos Estados Unidos, o padrão Daubert admite a prova científica quando o método é testável, tem taxa de erro conhecida, passou por revisão por pares e é aceito pela comunidade técnica [4] — critérios que uma análise on-chain bem conduzida atende, a começar pela testabilidade que a reprodutibilidade garante.

O que a análise on-chain não faz

Duas ressalvas honestas evitam expectativas equivocadas. A primeira: rastrear não é identificar. A análise mostra o caminho entre endereços — públicos, mas pseudônimos —, não o nome de quem os controla. Ligar um endereço a uma pessoa depende da etapa de atribuição, que cruza o registro com o cadastro (KYC) de uma exchange e, em regra, exige ordem judicial.

A segunda: há limites técnicos, que variam conforme o método. Serviços de mixagem e transações CoinJoin embaralham o rastro e tornam a reconstrução mais difícil — não impossível, pois em muitos casos ainda se consegue reencontrar o fluxo. Moedas de privacidade como o Monero vão além: por desenho, encerram a trilha on-chain. Já as bridges entre redes não apagam o rastro — apenas o deslocam para outra blockchain, exigindo continuar a análise na rede de destino, e cada ponte deixa um novo registro. É a distinção entre "transações simples" e "transações complexas" que tratei no livro Bitcoin e Lavagem de Dinheiro [5]. É esse tipo de análise on-chain que a Chainspect produz: o parecer que documenta o fluxo e instrui as medidas judiciais cabíveis, sem prometer a recuperação dos valores — que não depende do rastreamento, e sim da decisão da Justiça.

Considerações finais

Entende-se, em síntese, que a análise on-chain é a leitura metódica de um registro público para reconstruir para onde foi o dinheiro — e que seu valor jurídico nasce da reprodutibilidade, não da palavra de quem a conduz. Para o advogado, é a peça técnica que converte a transparência da blockchain em prova utilizável e, ao mesmo tempo, uma ferramenta com limites que precisam ser declarados no próprio parecer. Os demais termos deste vocabulário estão reunidos no glossário de forense blockchain.

Perguntas frequentes

O que significa fazer uma análise on-chain?

Significa examinar o registro público de uma blockchain para reconstruir o fluxo de valores a partir de um TXID ou endereço — de onde saíram, por onde passaram e onde estão. Feita com metodologia e cadeia de custódia, essa reconstrução vira prova pericial utilizável em processo.

Análise on-chain é a mesma coisa que forense blockchain?

Não exatamente. A análise on-chain reconstrói o fluxo dos valores na rede. A forense blockchain é mais ampla: soma a esse fluxo a atribuição dos endereços a pessoas, o rigor pericial e a cadeia de custódia. Ler um explorador de blocos, por sua vez, é apenas consultar transações isoladas.

A análise on-chain identifica quem é o dono da carteira?

Não sozinha. A análise mostra o caminho entre endereços, que são públicos mas pseudônimos. Ligar um endereço a uma pessoa depende da atribuição — cruzar o registro com o cadastro (KYC) de uma exchange — e, em regra, de ordem judicial.

A análise on-chain serve como prova em um processo?

Sim, quando conduzida com metodologia e cadeia de custódia. Seu valor probatório vem da reprodutibilidade: juiz, perito e parte contrária podem repetir a consulta e chegar ao mesmo resultado. No Brasil, o lastro está no CPP (arts. 158-A e 159) e na norma ISO/IEC 27037.

Referências

  1. CHAINALYSIS. Blockchain Forensics (Glossary). chainalysis.com.
  2. BRASIL. Código de Processo Penal (Decreto-Lei nº 3.689/1941). Art. 158-A (cadeia de custódia, incluído pela Lei nº 13.964/2019) e art. 159 (perícia e assistente técnico).
  3. INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO/IEC 27037:2012 — Guidelines for identification, collection, acquisition and preservation of digital evidence. Genebra, 2012.
  4. UNITED STATES SUPREME COURT. Daubert v. Merrell Dow Pharmaceuticals, Inc., 509 U.S. 579 (1993).
  5. MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.