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Rastreamento

Bitcoin vs USDT vs Ethereum: o que é mais fácil de rastrear

Bitcoin vs USDT vs Ethereum: o que é mais fácil de rastrear

Qual criptomoeda é mais fácil de rastrear? A pergunta tem uma armadilha. Bitcoin, Ethereum e USDT são os três igualmente rastreáveis — cada um roda sobre um livro-caixa público. A diferença que importa não é qual se rastreia melhor, e sim que só o USDT pode ser congelado. E o criptoativo realmente difícil de rastrear nem está no trio: é o Monero.

Convém desmontar de saída a intuição mais comum: a de que "o Bitcoin é o mais fácil de rastrear", por ser o mais antigo e o mais estudado. Um estudo acadêmico de Domokos Kelen e István Seres, que se propôs a medir a rastreabilidade das duas maiores redes, encontrou o contrário. Numa janela específica de tempo, a blockchain do Ethereum apresentou, em média, um embaralhamento natural um pouco menor que a do Bitcoin — ou seja, foi ligeiramente mais rastreável [1]. Não é uma lei universal, mas uma medição pontual; ainda assim, basta para mostrar que a resposta óbvia está errada. Entre as redes transparentes, não há um vencedor claro.

Os três deixam o mesmo tipo de rastro público

Bitcoin, Ethereum e USDT compartilham a característica que torna qualquer um deles rastreável: rodam sobre blockchains públicas e permanentes. No Bitcoin, cada transação mostra origem, destino e valor. No Ethereum, o mesmo — e o USDT não é uma rede própria, mas um token que circula sobre outras blockchains, sobretudo a Tron e a Ethereum, herdando a transparência delas. Em todas as três, a análise on-chain segue o caminho do dinheiro de carteira em carteira, como detalhei ao explicar o rastreamento de bitcoin de um golpe. O que a blockchain não entrega, em nenhuma delas, é o nome por trás do endereço: ela registra endereços, não identidades. Essa é a regra comum — e o ponto de partida para entender onde as redes realmente se diferenciam.

Por que "o Bitcoin é o mais fácil" é um mito técnico

A crença de que o Bitcoin seria o mais transparente vem da sua idade — foi o primeiro e é o mais estudado. Mas a rastreabilidade depende do modelo de contabilidade da rede, e aí Bitcoin e Ethereum funcionam de formas opostas. O Bitcoin usa o modelo UTXO: cada pagamento consome "moedas" anteriores e gera novas, muitas vezes com um endereço de troco diferente a cada operação. Isso dispersa os valores, mas cria uma pista poderosa — quando vários endereços entram juntos numa mesma transação, presume-se que pertencem ao mesmo dono. É a chamada heurística de gasto comum, uma das ferramentas centrais que descrevo no livro Bitcoin e Lavagem de Dinheiro [2].

O Ethereum e a Tron — e, com elas, o USDT que roda sobre essas redes — adotam o modelo de conta. O saldo fica numa conta única, reutilizada a cada transação, como uma conta bancária. O efeito é duplo. Por um lado, seguir um endereço salto a salto tende a ser mais direto: a identidade do endereço persiste, sem a fragmentação em dezenas de UTXOs. Por outro, falta ao modelo de conta um equivalente tão consolidado da heurística de gasto comum para agrupar várias contas sob um mesmo dono. Não há, portanto, um vencedor limpo: seguir um endereço é mais direto no Ethereum e no USDT; agrupar carteiras de um mesmo controlador é mais forte no Bitcoin. As duas redes são altamente rastreáveis — muda o método, não o "se".

A diferença que realmente importa: quem pode congelar

Há uma razão prática para o USDT dominar essa conversa: ele é o trilho preferido de golpistas no Brasil, pela combinação de taxas baixas na rede Tron, liquidez em dólar e estabilidade de preço — e as stablecoins responderam por 63% de todo o volume ilícito on-chain em 2024, segundo levantamento da Chainalysis [3]. Mas o que de fato separa o USDT do Bitcoin e do Ethereum não é a visibilidade, e sim a acionabilidade. Como stablecoin emitida por uma empresa, a Tether controla o contrato do token e pode bloquear o saldo de qualquer endereço ligado a atividade ilícita. Em 23 de abril de 2026, congelou US$ 344 milhões em USDT na rede Tron, em coordenação com o OFAC e autoridades dos Estados Unidos [4] — e, desde 2014, já bloqueou cerca de US$ 835 milhões em fundos ligados a ilícitos [3].

É um poder que nem o Bitcoin nem o Ethereum, descentralizados e sem administrador central, oferecem: ninguém congela um bitcoin. Por isso, na prática, o USDT tende a ser o ativo mais acionável para quem investiga — transparente e, ao mesmo tempo, congelável. Vale a ressalva que faço sempre: esse congelamento não é acionado pela vítima por conta própria, depende de autoridade ou de ordem judicial, e congelar não é o mesmo que recuperar. A mecânica do bloqueio — e seus limites — está detalhada no artigo sobre o freeze de USDT pela Tether.

O verdadeiro contraste não é entre essas três

Se Bitcoin, Ethereum e USDT são todos rastreáveis, onde está o criptoativo genuinamente difícil de seguir? Fora do trio da pergunta. O contraste real é com as chamadas moedas de privacidade, e o exemplo mais conhecido é o Monero (XMR), desenhado para apagar exatamente os três dados que tornam as outras redes transparentes: ele oculta remetente, destinatário e valor por padrão [5]. Nele, as heurísticas que sustentam o rastreamento de Bitcoin e USDT simplesmente não funcionam. É por isso que a comparação útil não é "Bitcoin, Ethereum ou USDT" — os três jogam a transparência a favor de quem investiga —, e sim moedas transparentes contra moedas de privacidade. Trato esse limite no artigo sobre por que o Monero é quase irrastreável.

O gargalo é o mesmo para os três: a exchange

Há um último ponto que iguala Bitcoin, Ethereum e USDT — e que costuma ser mais decisivo do que qualquer diferença entre eles. A blockchain revela o caminho dos valores, mas não o nome de quem controla os endereços. Nas três redes, o momento em que o endereço vira uma pessoa é o mesmo: quando os valores passam por uma corretora que exige cadastro de clientes (KYC). É ali, no ponto de saída — o off-ramp —, que a autoridade pode requisitar os dados e ligar o endereço a um CPF ou CNPJ. Rastrear qualquer uma das três leva a esse mesmo gargalo. E vale a distinção que sempre reforço: rastrear não é recuperar. A análise on-chain produz a evidência de para onde o dinheiro foi; a devolução depende de medidas judiciais e da cooperação das corretoras.

Considerações finais

"Qual cripto é mais fácil de rastrear?" é, em boa medida, a pergunta errada. Bitcoin, Ethereum e USDT são os três livros-caixa públicos e altamente rastreáveis; a intuição de que o Bitcoin seria o mais transparente não se sustenta diante da técnica, e um estudo chegou a medir o Ethereum como ligeiramente mais rastreável. O que distingue o USDT não é a visibilidade — igual à das outras duas —, e sim a possibilidade de congelamento pela Tether, que o torna o mais acionável na prática. E o único caso realmente difícil não está no trio: são as moedas de privacidade, como o Monero.

Para quem foi vítima, a lição prática é não se prender ao rótulo da moeda. Seja bitcoin, ether ou USDT, o rastro existe e o caminho investigativo é semelhante: seguir o fluxo on-chain até o ponto em que os valores tocam uma corretora e documentar tudo com rigor técnico, para instruir a autoridade. A Chainspect realiza esse tipo de rastreamento e produz o parecer correspondente, que pode servir de assistência técnica ao advogado. Sobre os primeiros passos de quem acabou de ser vítima, o guia de o que fazer diante de um golpe com criptoativos reúne o essencial.

Perguntas frequentes

Qual criptomoeda é mais fácil de rastrear?

Bitcoin, Ethereum e USDT são igualmente rastreáveis: os três rodam sobre blockchains públicas onde cada transação fica registrada. Não há um vencedor claro — um estudo acadêmico chegou a medir o Ethereum como ligeiramente mais rastreável que o Bitcoin. A diferença que importa não é a rastreabilidade, e sim que só o USDT pode ser congelado pela Tether. O criptoativo realmente difícil de rastrear é outro: o Monero.

O Bitcoin é o mais fácil de rastrear por ser o mais antigo?

Não necessariamente. A idade do Bitcoin fez dele o mais estudado, mas a rastreabilidade depende do modelo da rede. O Bitcoin usa o modelo UTXO, com o troco disperso em vários endereços; o Ethereum e o USDT usam o modelo de conta, com o saldo numa conta reutilizada. Seguir um endereço tende a ser mais direto no modelo de conta; agrupar carteiras de um mesmo dono é mais forte no Bitcoin. Nenhum é 'o mais fácil' de forma absoluta.

Por que o USDT pode ser congelado e o Bitcoin não?

Porque o USDT é uma stablecoin emitida por uma empresa, a Tether, que controla o contrato do token e pode bloquear o saldo de endereços ligados a atividade ilícita — foi assim que congelou US$ 344 milhões na rede Tron em abril de 2026. O Bitcoin e o Ethereum são descentralizados, sem administrador central: ninguém tem o poder de congelar saldos. Congelar, porém, não é o mesmo que recuperar, nem é acionável diretamente pela vítima.

Se todos são rastreáveis, o que muda na prática para a vítima?

Menos do que se imagina. O rótulo da moeda — bitcoin, ether ou USDT — não altera o essencial: o rastro on-chain existe nas três e o caminho investigativo é semelhante, terminando no ponto em que os valores passam por uma corretora com cadastro (KYC). A diferença prática é que o USDT, por ser congelável, costuma ser o mais acionável. O caso mais difícil é quando o dinheiro vira uma moeda de privacidade, como o Monero.

Referências

  1. KELEN, Domokos Miklós; SERES, István András. Towards Measuring the Traceability of Cryptocurrencies. arXiv:2211.04259, 2022 (revisado em 2024). (medição pontual comparando Bitcoin e Ethereum num intervalo específico).
  2. MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.
  3. CHAINALYSIS apud INTERNATIONAL COMPLIANCE ASSOCIATION. Stablecoins: The New Epicentre of Crypto Fraud. 2025/2026. (stablecoins responderam por 63% do volume ilícito on-chain em 2024; a Tether já congelou cerca de US$ 835 milhões desde 2014).
  4. Cobertura da CoinDesk, de 23 abr. 2026, sobre o comunicado da Tether que anunciou o congelamento de mais de US$ 344 milhões em USD₮ na rede Tron, em coordenação com o OFAC e autoridades dos Estados Unidos.
  5. MONERO PROJECT. What is Monero (XMR)? e Moneropedia: Ring Signatures / Stealth Address / Ring CT. getmonero.org (documentação técnica do protocolo).