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Golpe do amor (romance scam) com cripto

Golpe do amor (romance scam) com cripto

Provavelmente sim, é golpe. Se você conheceu alguém pela internet que, com o tempo, ganhou sua confiança — ou seu afeto — e aos poucos passou a convencê-lo a "investir" em criptomoedas numa plataforma que só ela indicou, o padrão tem nome: golpe do amor, ou romance scam. É uma das faces do que também se chama pig butchering, o golpe do abate.

O sinal de alerta central é a combinação de dois ingredientes: um relacionamento que nasceu online e uma "oportunidade" de investir em cripto. Segundo a Federal Trade Commission (FTC), a agência de defesa do consumidor dos Estados Unidos, a criptomoeda tornou-se, já em 2021, o meio de pagamento com as maiores perdas em golpes de romance; em 2022, a perda mediana de quem pagou em cripto chegou a US$ 10.079 por vítima — a maior entre as formas de pagamento nesse tipo de golpe [1]. Só nos nove primeiros meses de 2025, os golpes de romance custaram US$ 1,16 bilhão às vítimas nos EUA [1]. No Brasil não há um número isolado dessa fraude, mas a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontou, em pesquisa de 2021 com vítimas de golpes financeiros, que a criptomoeda era o produto de investimento mais citado por quem cai em fraude no país (43,3%) — e que o principal canal por onde a abordagem chega é o aplicativo de mensagens [2].

Como funciona o golpe do amor com cripto

O golpe do amor inverte a lógica das fraudes de investimento comuns. Em vez de oferecer o "negócio" logo de cara, o criminoso investe semanas — às vezes meses — construindo um vínculo. O contato surge de forma aparentemente casual: um match em aplicativo de namoro, uma abordagem no Instagram ou no LinkedIn, ou até uma mensagem "enviada por engano" no WhatsApp. Nas primeiras conversas não há qualquer menção a dinheiro. O objetivo é apenas que você confie.

Só depois de estabelecida a confiança é que entra a cripto. O "par" conta que ganha dinheiro com criptomoedas, mostra prints dos próprios "lucros" e se oferece para ensinar. Convida você a começar com pouco, numa plataforma que parece profissional — muitas vezes uma corretora clonada ou fantasma. O saldo na tela cresce, o que reforça a sensação de que é real e de que vale a pena depositar mais. O problema aparece na hora de sacar: surgem "taxas", "impostos" ou "margens" para liberar o dinheiro — e, quando a vítima se dá conta, o site travou os saques e o "parceiro" desapareceu.

Os sinais de alerta do golpe do amor

Reconhecer o padrão é a defesa mais eficaz, porque o golpe do amor explora justamente o que baixa a guarda: o afeto. Os sinais mais frequentes, isolados ou combinados, merecem atenção:

  • O relacionamento nasceu online e avança rápido — demonstrações intensas de interesse ou de amor em pouco tempo, antes de qualquer encontro presencial.
  • A pessoa nunca aparece — desculpas recorrentes para não fazer videochamada ou não se encontrar (trabalha "em plataforma de petróleo", "no exterior", "em missão").
  • A conversa migra para investimento — em algum momento, o assunto vira cripto, com promessa de retorno alto e "sem risco".
  • A plataforma é indicada só por essa pessoa — você não chegou a ela por conta própria; foi apresentado pelo "par", que se oferece para ajudar a operar.
  • Você vê lucro, mas não consegue sacar — ao tentar retirar, aparecem taxas ou impostos para "liberar", e cada saque exige um novo depósito.

Por que a vítima demora a denunciar

Diferentemente de um golpe frio, aqui a vítima não avalia uma proposta financeira com distanciamento: ela avalia o conselho de alguém por quem, muitas vezes, desenvolveu afeto real. Isso tem duas consequências. A primeira é que os valores crescem aos poucos, à medida que a confiança aumenta. A segunda, mais grave para a investigação, é a demora em denunciar — envergonhada ou ainda esperançosa de que o relacionamento seja verdadeiro, a vítima leva semanas para admitir o golpe. E cada dia perdido reduz a chance de bloquear os valores.

Vale um esclarecimento que muda a forma de encarar o caso: do outro lado da tela nem sempre há a pessoa da foto. É amplamente noticiado que boa parte desse tipo de golpe é operada a partir de complexos no Sudeste Asiático, com relatos de pessoas submetidas a trabalho forçado para aplicar o roteiro em escala industrial. O afeto que a vítima recebe é, na prática, um produto fabricado por uma operação organizada, com scripts, turnos e metas.

Dá para rastrear o dinheiro do golpe do amor?

Sim, na maioria dos casos. Embora a vítima sinta que "está tudo perdido", o dinheiro não desaparece: ele se move para carteiras controladas pelo golpista e, cedo ou tarde, precisa ser convertido em moeda comum numa corretora. Esse ponto de saída é o elo rastreável. Um estudo da Universidade do Texas em Austin (Griffin e Mei, 2024) rastreou mais de US$ 75 bilhões movidos por redes de pig butchering para exchanges entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024, dos quais US$ 15 bilhões entraram em apenas cinco delas — incluindo uma das maiores do mundo, a Coinbase [3]. Ou seja: por mais internacional que seja a operação, os fundos tendem a convergir para plataformas com cadastro de clientes (KYC), que é onde a investigação encontra um ponto de identificação.

Há limites honestos, porém. O rastro fica bem mais caro e incerto quando os valores passam por mixers; se são convertidos em uma moeda de privacidade como o Monero, a trilha se encerra ali. As bridges entre redes são caso distinto: não apagam o rastro, deslocam-no para outra blockchain. São os arranjos que classifiquei, no livro Bitcoin e Lavagem de Dinheiro, como transações "complexas", por oposição às "simples", rastreáveis de forma direta [4]. Ainda assim, os pontos de entrada e de saída nas corretoras costumam permanecer visíveis, e a viabilidade se avalia caso a caso.

É importante separar duas coisas que costumam ser confundidas: rastrear não é o mesmo que recuperar. O rastreamento on-chain — que a Chainspect realiza — produz uma prova técnica sobre o destino dos valores; a identificação de quem os controla depende do cadastro KYC da exchange de destino e, em regra, de ordem judicial; a devolução, quando ocorre, depende de decisão judicial, de cooperação (muitas vezes internacional) e da velocidade da reação. Por isso a demora em denunciar é tão custosa. Quem acabou de perceber o golpe encontra o passo a passo no guia sobre as primeiras 72 horas após um golpe, e as medidas cabíveis na página sobre fraudes com criptoativos.

Cuidado com o golpe depois do golpe

Um alerta final e importante: vítimas de golpe do amor estão entre os alvos preferenciais do chamado golpe de recuperação (recovery scam). Pouco depois de relatar o caso — em um fórum, num grupo ou em rede social —, muitas recebem o contato de alguém que se apresenta como "perito" e promete reaver o dinheiro mediante uma taxa antecipada. É o golpe depois do golpe. Distinguir um falso perito de um profissional legítimo é uma questão de método: quem faz o trabalho sério entrega um parecer técnico e é transparente sobre os limites — nunca promete recuperação garantida.

Considerações finais

O golpe do amor com cripto é, antes de tudo, um golpe de confiança — e essa é a resposta à pergunta que abre este texto. Quando alguém que você conheceu pela internet passa, com naturalidade, de um relacionamento para conselhos de investimento em criptomoedas, o sinal de alerta deve subir. A tecnologia por trás da fraude é secundária; o que a sustenta é a paciência do criminoso em transformar um estranho em alguém de confiança.

Reconhecer o padrão a tempo evita o prejuízo. E, quando o golpe já ocorreu, o que preserva a chance de resposta é a velocidade: documentar tudo, registrar a ocorrência e buscar o rastreamento o quanto antes. Rastrear não devolve o dinheiro sozinho, mas produz a prova que dá tração ao pedido de bloqueio e à responsabilização de quem aplicou o golpe. É esse o caminho honesto — sem promessas de recuperação, com evidência que o processo possa usar.

Perguntas frequentes

Conheci alguém pela internet que me convenceu a investir em cripto: é golpe?

Provavelmente sim. O padrão — um relacionamento que nasce online e, aos poucos, evolui para conselhos de investimento em criptomoedas numa plataforma indicada por essa pessoa — é o chamado golpe do amor, ou romance scam. Segundo a FTC, a criptomoeda tornou-se um dos meios de pagamento com as maiores perdas em golpes de romance. O sinal decisivo é a mistura de afeto com uma "oportunidade" de investir.

Qual a diferença entre golpe do amor e pig butchering?

São faces do mesmo fenômeno. Pig butchering (golpe do abate) é o nome técnico da fraude que combina a construção de um vínculo — romântico ou de amizade — com um falso investimento em cripto. Golpe do amor, ou romance scam, é a versão em que o vínculo é romântico. Na prática, o roteiro e o desfecho são os mesmos: confiança primeiro, depósitos depois, saque bloqueado no fim.

Dá para rastrear o dinheiro perdido em um golpe do amor com cripto?

Em geral, sim. A vítima envia os valores para carteiras do golpista, e esse fluxo tende a terminar em uma corretora com cadastro de clientes (KYC) — o ponto onde a investigação encontra rastro. Mas rastrear não é o mesmo que recuperar: o rastreamento produz prova técnica sobre o destino dos valores; a devolução depende de decisão judicial e de cooperação, muitas vezes internacional.

Como identificar um golpe do amor antes de perder dinheiro?

Desconfie quando um relacionamento iniciado online avança rápido, a pessoa evita videochamadas ou encontros presenciais e, em algum momento, migra a conversa para um investimento em cripto "sem risco" numa plataforma que só ela indicou. O sinal mais claro vem no fim: você vê lucro na tela, mas, ao tentar sacar, surgem taxas ou impostos para "liberar" — e o saque nunca acontece.

Recebi uma oferta para recuperar o dinheiro do golpe. Devo confiar?

Desconfie, sobretudo se o contato não foi solicitado e cobra uma taxa antecipada. Vítimas de golpe do amor estão entre os alvos preferenciais do golpe de recuperação (recovery scam), o golpe depois do golpe. Um trabalho legítimo entrega um parecer técnico e é transparente sobre os limites — nunca promete recuperação garantida nem cobra para "liberar" os valores.

Referências

  1. UNITED STATES FEDERAL TRADE COMMISSION (FTC). Reports show scammers cashing in on crypto craze (Data Spotlight). Washington, D.C., 2022; e dados sobre romance scams, 2025.
  2. BRASIL. Comissão de Valores Mobiliários (CVM/CECOP). Pesquisa com Vítimas de Fraudes Financeiras. Rio de Janeiro, 2021.
  3. GRIFFIN, John M.; MEI, Kevin. Estudo sobre a dimensão global das fraudes de "pig butchering". Universidade do Texas em Austin, 2024.
  4. MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.