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SIM swap e furto de exchange: clonaram meu chip, dá para rastrear?

SIM swap e furto de exchange: clonaram meu chip, dá para rastrear?

Sim, dá para rastrear. Quando um golpista clona o seu chip por SIM swap e esvazia a sua conta na corretora, a criptomoeda que saiu não desaparece — ela fica registrada na blockchain e pode ser seguida até o ponto em que vira dinheiro. Descobrir quem clonou o chip, porém, é outra frente, que depende de dados da operadora e da corretora.

O golpe não é raro nem pequeno. Em alerta público, o FBI, por meio do seu Internet Crime Complaint Center (IC3), informou ter recebido 1.611 queixas de SIM swap em 2021, com perdas superiores a US$ 68 milhões — contra apenas 320 queixas e cerca de US$ 12 milhões em todo o período de 2018 a 2020 [1]. O próprio FBI registra que os criminosos miram as contas de moeda virtual (virtual currency accounts) das vítimas. São números dos Estados Unidos: no Brasil, não há cifra oficial que isole o SIM swap voltado a exchanges de cripto — mas a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) reconhece o golpe e descreve o seu funcionamento [2].

O que é SIM swap e como o golpista chega à sua exchange

SIM swap — também chamado de troca de chip — é a técnica pela qual o criminoso assume o controle do seu número de telefone. Na prática, ele convence a operadora a transferir a sua linha para um novo chip, sob o poder dele. A partir daí, todas as chamadas e mensagens destinadas a você passam a chegar ao aparelho do golpista, incluindo os códigos de verificação enviados por SMS. Segundo a Anatel, a manobra pode ocorrer de duas formas: dentro da mesma operadora — com documentos falsos em nome da vítima ou com a cooptação de um funcionário — ou por meio da portabilidade, quando o criminoso se apresenta em outra prestadora fingindo ser você [2].

É esse detalhe que liga o chip clonado à sua corretora de cripto. Com o número em mãos, o golpista aciona a opção “esqueci a senha” na exchange e no e-mail vinculado; o código de uso único (OTP) chega por SMS — agora no telefone dele — e a conta é tomada. Como descreve o FBI, uma vez feito o SIM swap, o criminoso usa a autenticação de dois fatores por SMS para receber esse código e redefinir o acesso [1]. Feito isso, transfere todo o saldo para carteiras próprias. Do lado da prevenção, a Anatel passou a exigir das operadoras medidas contra a fraude — um segundo fator de autenticação no procedimento de portabilidade, o uso de biometria na identificação do cliente e o compartilhamento de informações com os bancos sobre linhas envolvidas em troca de chip [2].

Como o crime é classificado no boletim de ocorrência

Para o registro policial, a classificação importa. Quando o criminoso assume a conta e transfere os valores sem qualquer participação sua, a conduta se amolda ao furto qualificado mediante fraude por meio de dispositivo eletrônico — o artigo 155, §4º-B, do Código Penal, incluído pela Lei nº 14.155/2021 e com pena majorada pela Lei nº 15.397/2026 para reclusão de 4 a 10 anos [3]. É daí que vem a expressão “furto de exchange”: não houve uma transferência voluntária induzida por engano — o que caracterizaria estelionato —, mas a subtração dos ativos por meio de acesso fraudulento. A depender das circunstâncias, a tomada da conta em si também pode envolver o crime de invasão de dispositivo informático (artigo 154-A do Código Penal) [3]. A tipificação exata depende do caso concreto, mas registrar o furto com a narrativa correta orienta as diligências.

Dá para rastrear? O caso tem duas frentes

A resposta ao “dá para rastrear?” fica mais clara quando se separam duas frentes do mesmo caso. A primeira é o dinheiro. A criptomoeda que saiu da sua conta é rastreável na blockchain: cada transferência fica registrada, com data e valor, e pode ser seguida de carteira em carteira até um ponto de conversão — quase sempre uma exchange com cadastro de clientes (KYC), onde os valores viram reais. Esse é o elo que interessa, porque a corretora de saque guarda os dados de quem sacou. É o mesmo trabalho descrito no guia sobre rastrear bitcoin de golpe: seguir o fluxo on-chain até onde ele reencontra um nome.

A segunda frente é a invasão. Descobrir quem clonou o chip depende de dados que estão fora da blockchain: os registros da operadora (quem pediu a troca, com quais documentos), os endereços IP e o dispositivo que acessaram a sua conta na exchange e os logs de login que a corretora mantém. Esses dados existem, mas o acesso a eles costuma exigir ordem judicial. Há, porém, um ponto favorável: a exchange de origem registra o acesso não autorizado — o que ajuda a demonstrar que houve invasão, mesmo antes de se saber o nome do autor.

O que rastrear não resolve

É preciso honestidade sobre os limites. Rastrear a criptomoeda não é o mesmo que identificar quem fez o SIM swap: a primeira frente é on-chain e viável; a segunda depende de dados de telecom e de IP, nem sempre conclusivos, e de cooperação por via judicial. O rastreamento pode chegar até a corretora onde os valores foram sacados sem que isso, por si só, revele o autor da clonagem.

Há ainda a distinção que atravessa todo o tema — e que está detalhada em artigo próprio sobre rastrear, bloquear e recuperar. O rastreamento produz a prova; o bloqueio é uma ordem judicial; a recuperação é a devolução efetiva, que depende da Justiça e da cooperação das corretoras. Por isso ninguém sério promete “recuperação garantida”: quando o rastro passa por serviços de mistura (mixers) ou chega a corretoras que não cooperam com as regras de prevenção à lavagem, ele pode travar. As pontes entre redes (bridges) são caso diferente: elas não interrompem o rastro — deslocam-no para outra blockchain, deixando registro dos dois lados; o trabalho aumenta, a trilha não some. No livro Bitcoin e Lavagem de Dinheiro, essa é a fronteira entre as transações simples, seguidas de forma direta, e as transações complexas [4].

Uma frente adicional é a responsabilidade da própria corretora. Se a conta foi tomada por deficiência nos mecanismos de segurança — por exemplo, a dependência exclusiva do 2FA por SMS, sabidamente vulnerável ao SIM swap —, discute-se a responsabilização da plataforma, tema tratado na análise sobre a responsabilidade das exchanges segundo o STJ. É um ângulo distinto do rastreamento, mas que pode caminhar em paralelo.

O que fazer agora

As primeiras horas decidem. Aja em duas frentes ao mesmo tempo: retome o controle do número e corte o acesso à conta.

  • Ligue para a operadora e retome a sua linha — peça o restabelecimento do número no seu chip e o registro formal do pedido fraudulento de troca.
  • Corte o acesso de outro dispositivo — encerre as sessões ativas na exchange e no e-mail vinculado e troque as senhas. Se possível, substitua o 2FA por SMS por um aplicativo autenticador.
  • Notifique a corretora por escrito — pelo canal de compliance, descreva a invasão, peça a preservação dos logs de acesso e dos endereços IP e solicite o bloqueio cautelar dos valores.
  • Preserve as provas — os TXIDs das transferências de saída, os endereços de destino, os prints e os avisos de saque recebidos por e-mail.
  • Registre o boletim de ocorrência com a tipificação correta e acione o rastreamento on-chain, que instrui o pedido de bloqueio judicial — tutela de urgência (artigos 300 e 301 do Código de Processo Civil) ou sequestro de bens móveis adquiridos com os proventos da infração (artigo 132 do Código de Processo Penal) [5].

O passo a passo detalhado dessas medidas está no guia sobre as primeiras 72 horas após um golpe, que serve de referência para a parte operacional da resposta.

Considerações finais

O SIM swap é um golpe de duas camadas: uma falha no controle do seu número de telefone que se converte em furto na sua conta de cripto. A resposta útil também tem duas camadas — conter o acesso e seguir o dinheiro. A criptomoeda desviada é rastreável na blockchain, e a corretora de origem guarda os registros que ajudam a provar a invasão; identificar quem operou a clonagem, porém, depende de dados de telecom e de decisão judicial, e nem sempre é conclusivo.

Entende-se que o valor de agir cedo está em criar as condições para uma resposta possível — preservar os logs antes que expirem, localizar os valores antes que se pulverizem. A Chainspect realiza esse tipo de rastreamento on-chain e produz o parecer técnico correspondente, que pode instruir as medidas judiciais cabíveis. Para quem acabou de passar por isso, há orientações específicas para vítimas de golpe e furto de cripto, e o passo mais produtivo agora é reunir cedo os TXIDs, os endereços e os comprovantes.

Perguntas frequentes

Clonaram meu chip e limparam minha conta na exchange: dá para rastrear?

Sim. A criptomoeda que saiu da conta fica registrada na blockchain e pode ser seguida até o ponto em que vira dinheiro — em geral uma exchange com cadastro de clientes (KYC). Identificar quem clonou o chip é uma frente separada, que depende de dados da operadora e da corretora, normalmente obtidos por ordem judicial.

O que é SIM swap e como o golpista assume minha conta de cripto?

SIM swap, ou troca de chip, é quando o criminoso convence a operadora a transferir o seu número para um chip sob o controle dele. Com o número, ele intercepta os códigos de verificação enviados por SMS, aciona a recuperação de senha da exchange e do e-mail e assume a conta — transferindo o saldo para carteiras próprias.

O rastreamento identifica quem clonou o meu chip?

Não diretamente. O rastreamento segue o dinheiro na blockchain até o ponto de saque; revelar o autor da clonagem depende de dados fora da blockchain — registros da operadora, endereços IP e logs de acesso da exchange —, cujo acesso costuma exigir ordem judicial e nem sempre é conclusivo.

Como me proteger de um SIM swap?

Troque a autenticação por SMS por um aplicativo autenticador sempre que a exchange permitir — o 2FA por SMS é justamente o elo que o golpe explora. Cadastre uma senha ou PIN junto à operadora para autorizar a troca de chip e a portabilidade. A Anatel também passou a exigir das operadoras biometria e segundo fator na portabilidade.

Rastrear a cripto significa recuperar o dinheiro?

Não. Rastrear, bloquear e recuperar são etapas distintas. O rastreamento produz a evidência técnica — mostra para onde os valores foram; a identificação de quem os controla depende do cadastro KYC da exchange de destino e, em regra, de ordem judicial. A devolução efetiva depende de decisão judicial e da cooperação das corretoras. Desconfie de quem promete recuperação garantida mediante taxa antecipada.

Referências

  1. FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION. Internet Crime Complaint Center (IC3) — Criminals Increasing SIM Swap Schemes to Steal Millions of Dollars from US Public (PSA I-020822-PSA). Washington, D.C., 8 fev. 2022.
  2. BRASIL. Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Dicas de Segurança / Golpes Frequentes — troca de chip (SIM swap). Portal gov.br/anatel, acesso em jul. 2026.
  3. BRASIL. Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940), artigo 155, §4º-B (furto qualificado mediante fraude por dispositivo eletrônico, incluído pela Lei nº 14.155/2021) e artigo 154-A (invasão de dispositivo informático, incluído pela Lei nº 12.737/2012).
  4. MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.
  5. BRASIL. Código de Processo Civil, artigos 300 e 301 (requisitos da tutela de urgência e medidas de efetivação); Código de Processo Penal, artigo 132 c/c artigo 126 (sequestro de bens móveis adquiridos com os proventos da infração; o artigo 125 trata dos imóveis).