
Num rug pull, o criador do token retira a liquidez do pool de negociação e o preço despenca a zero — e a blockchain registra exatamente esse movimento: uma única transação, quase sempre de um só endereço, esvaziando o pool. É por isso que o rug pull é um dos golpes mais visíveis na blockchain. A dificuldade não é enxergar o que aconteceu, e sim ligar o endereço a uma pessoa.
O golpe não é marginal. A Chainalysis estima que os golpes com criptoativos movimentaram cerca de US$ 17 bilhões em 2025 [1]; o rug pull, especificamente, teve seu ano mais documentado em 2021, quando levou mais de US$ 2,8 bilhões — o equivalente a 37% de toda a receita de golpes com criptoativos naquele ano, contra apenas 1% em 2020 [2]. É preciso datar esse número: são dados de 2021. Nos anos seguintes, a própria Chainalysis passou a reagrupar o rug pull dentro de categorias mais amplas de manipulação de mercado e não voltou a publicar uma cifra anual tão isolada — nem existe um equivalente brasileiro. Desconfie, portanto, de textos que apresentam esse mesmo "US$ 2,8 bilhões" como se fosse de 2025: é a reciclagem de um dado de quatro anos atrás.
O que é um rug pull, na prática da blockchain
Rug pull, em tradução livre, é "puxar o tapete". O criador lança um token e cria um par de negociação numa corretora descentralizada (DEX), depositando ali uma reserva — o pool de liquidez — que permite às pessoas comprar e vender aquele token. Investidores entram, o preço sobe, o pool cresce. Então o criador saca a liquidez que sustentava o preço. Sem reserva, o token perde valor de forma abrupta e os compradores ficam com um ativo que ninguém quer e que eles não conseguem vender.
Este artigo trata da parte que a blockchain revela: a retirada de liquidez, a estrutura do contrato do token e a concentração de moedas nas mãos do criador. O discurso que atrai a vítima — a falsa plataforma, a promessa de lucro fácil — é um capítulo à parte, com dinâmica própria. Aqui, o foco é o rastro técnico, aquilo que fica gravado e pode ser lido depois.
A assinatura on-chain: um endereço esvazia o pool
Quando alguém pergunta "o que a blockchain mostra", a resposta é concreta. A Chainalysis trata como forte indício de rug pull o caso em que "um único endereço removeu mais de 70% da liquidez do pool do token" numa DEX nas primeiras semanas após o lançamento [3]. Essa retirada não é uma suspeita difusa: é uma transação pública, com data, hora e valor gravados para sempre. Em um dos casos analisados pela empresa, um endereço removeu toda a liquidez de uma só vez, "deixando os demais usuários sem conseguir vender" seus tokens [3].
Um exemplo que ficou conhecido é o do projeto AnubisDAO. Segundo a Chainalysis, "o endereço que criou o pool sacou suas enormes participações de LP tokens" — os comprovantes de que se detém uma fatia da liquidez —, levando quase todo o Ether depositado pelos investidores: algo em torno de US$ 58 milhões em cerca de 20 horas [2]. O rastro do golpe estava inteiro na blockchain, aberto para qualquer um ler.
Há ainda um sinal que aparece antes do golpe: a concentração. Quando poucos endereços — tipicamente o do criador — detêm uma fatia enorme do total de tokens em circulação, existe o combustível para o "dump", a venda em massa que derruba o preço. Essa concentração é observável on-chain antes de a liquidez ser retirada, e é um dos alertas que uma análise cuidadosa procura enquanto ainda há tempo.
Hard rug, soft rug e o contrato "honeypot"
Nem todo rug pull é igual. No hard rug, o golpe é abrupto: o criador drena de uma vez a liquidez do pool. Uma variante desse tipo é o contrato "honeypot" (pote de mel), programado para deixar a vítima comprar o token, mas impedir que ela venda — a armadilha está no próprio código do contrato inteligente. No soft rug, o processo é mais lento: o criador despeja aos poucos a grande fatia do supply que concentrava, derrubando o preço de forma gradual, como quem esvazia uma piscina em vez de estourá-la. Em todos os casos, as operações ficam registradas na blockchain — a diferença está no ritmo, não na visibilidade.
Dá para rastrear? Sim, com uma ressalva
A boa notícia para a vítima é que a transparência da blockchain joga a seu favor: a retirada de liquidez é pública, de modo que a própria existência do golpe fica provada com clareza. Como detalho na análise sobre o que a análise on-chain revela, o dinheiro não some — ele se move, e cada parada fica registrada com data e hora.
A ressalva é específica do rug pull. Rastrear "para a frente", até uma pessoa, costuma ser mais difícil aqui do que num golpe comum de corretora. O palco é a DEX, que não exige identificação de cliente (o chamado KYC); os valores saem em stablecoin ou Ether e muitas vezes passam por mixers e por pontes entre redes para embaralhar o caminho. O ponto em que o rastro reencontra um nome costuma ser a corretora com KYC que o criador usou — seja para financiar a carteira que publicou o token, seja para sacar o lucro em reais. Como sustento em Bitcoin e Lavagem de Dinheiro, cedo ou tarde o valor tende a convergir para um ponto de conversão em moeda estatal, e é ali que a investigação se aproxima de uma identidade [4].
Por isso vale a distinção que trato em rastrear, bloquear e recuperar: a blockchain prova o golpe, mas ligar o endereço a um responsável e reaver valores são etapas seguintes, que dependem de dados cadastrais e de decisão judicial. Ninguém sério promete devolução garantida — essa promessa, mediante taxa antecipada, é a marca do recovery scam, o golpe que costuma vir depois do golpe.
O que fazer se você caiu num rug pull
Do ponto de vista prático, a transparência on-chain significa que a prova não desaparece — a retirada de liquidez fica gravada de forma permanente. Se você investiu num token que deu rug pull, preserve o endereço do contrato do token, o endereço do pool, os TXIDs (os códigos das transações) da sua compra e da retirada, e prints das telas e conversas. Em seguida, registre um boletim de ocorrência: no direito brasileiro, enganar pessoas para que invistam configura, em tese, estelionato (artigo 171 do Código Penal) [5]. A documentação técnica desse rastro é o que instrui as medidas cabíveis — há orientações específicas para vítimas de golpe e uma forma de avaliar a viabilidade da análise no diagnóstico preliminar, sem promessa de resultado.
Considerações finais
O rug pull carrega uma ironia útil para a vítima: é um dos golpes que mais deixa rastro. A retirada de liquidez que zera o token é uma transação pública, datada e permanente — a mesma blockchain que o golpista usa para operar é a que documenta o golpe. Ler esse registro mostra com clareza o que aconteceu: quem esvaziou o pool, quando e quanto levou.
O que a análise on-chain não faz sozinha é devolver o dinheiro. Ela entrega prova — e a prova é o que dá tração ao pedido de bloqueio e à responsabilização do autor. Para a vítima, o caminho é agir rápido, preservar tudo e buscar uma avaliação honesta do que é ou não viável; rastrear, como se vê, não é o mesmo que recuperar. É essa distinção, e não a promessa de milagre, que separa o trabalho sério do golpe que se aproveita do desespero de quem já perdeu uma vez.
Perguntas frequentes
O que é um rug pull?
Rug pull ("puxar o tapete") é o golpe em que o criador de um token de criptomoeda atrai investidores para um pool de liquidez numa corretora descentralizada (DEX) e depois retira essa liquidez, fazendo o preço desabar a zero. Os compradores ficam com um ativo sem valor e sem conseguir vender.
O que a blockchain mostra quando um token dá rug pull?
A blockchain registra a transação de retirada de liquidez — em geral um único endereço, o do criador, esvaziando o pool, com data e hora. A Chainalysis trata como forte indício de rug pull quando um endereço remove mais de 70% da liquidez do pool nas primeiras semanas. O preço vai a zero e os demais holders ficam travados.
Dá para rastrear e recuperar o dinheiro perdido num rug pull?
A retirada de liquidez é pública e rastreável on-chain, o que prova o golpe com clareza. Mas rastrear não é recuperar: ligar o endereço a uma pessoa depende de os valores passarem por uma corretora com KYC, e a devolução depende de decisão judicial. Ninguém sério promete recuperação garantida.
Qual a diferença entre hard rug e soft rug?
No hard rug, o criador drena de uma vez a liquidez do pool — ou usa um contrato "honeypot", que deixa comprar mas impede vender. No soft rug, ele despeja aos poucos a grande fatia do supply que concentrava, derrubando o preço de forma gradual. Ambos deixam rastro na blockchain.
Como identificar um token com risco de rug pull na blockchain?
Sinais on-chain observáveis antes do golpe: supply muito concentrado em poucos endereços (o do criador), liquidez baixa ou não travada (unlocked) e permissões no contrato que dão ao criador poder de retirar a liquidez ou bloquear vendas. Nenhum sinal isolado é prova, mas a combinação acende o alerta.
Referências
- CHAINALYSIS. 2026 Crypto Crime Report: Scams. 2026.
- CHAINALYSIS. Crypto Scams: 2021 Rug Pulls Put Revenues Near All-Time High. 16 dez. 2021.
- CHAINALYSIS. Crypto Patterns That May Suggest Pump and Dump Schemes. 2024.
- MORAES, Felipe Américo. Bitcoin e Lavagem de Dinheiro: quando uma transação configura crime. Belo Horizonte: Tirant lo Blanch, 2022.
- BRASIL. Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940), artigo 171 (estelionato).